segunda-feira, 7 de maio de 2018

Os Sons do Silêncio


Um rei mandou seu filho estudar no templo de um sábio mestre com o objetivo de prepará-lo para ser um grande líder. Quando o príncipe chegou ao templo, o mestre o mandou sozinho para uma floresta. Ele deveria voltar um ano depois, e descrever todos os sons da floresta.

Quando o príncipe retornou ao templo, após um ano, o mestre lhe pediu para descrever todos os sons que conseguira ouvir. Então disse o príncipe: "Mestre, pude ouvir o canto dos pássaros, o barulho das folhas, o alvoroço dos beija-flores, a brisa batendo na grama, o zumbido das abelhas, o barulho do vento cortando os céus..." E ao terminar o seu relato, o mestre pediu que o príncipe retornasse à floresta para ouvir tudo o mais que fosse possível.

Apesar de intrigado, o príncipe obedeceu a ordem do mestre, pensando: "Não entendo, eu já distingui todos os sons da floresta..."

Por dias e noites ficou sozinho ouvindo, ouvindo, ouvindo... mas não conseguia distinguir nada além daquilo que já havia relatado ao mestre. Porém, certa manhã, começou a distinguir sons vagos, diferentes de tudo o que ouvira antes. E, quanto mais prestava atenção, mais claros os sons se tornavam. Uma sensação de encantamento tomou conta do rapaz. Pensou: - "Esses devem ser os sons que o mestre queria que eu ouvisse..." E sem pressa, ficou ali ouvindo e ouvindo, pacientemente. Queria ter certeza de que estava no caminho certo.

Quando retornou ao templo, o mestre lhe perguntou o que mais conseguira ouvir. Paciente e respeitosamente, o príncipe falou: "Mestre, quando prestei atenção pude ouvir o inaudível som das flores se abrindo, o som do sol nascendo e aquecendo a terra e o da grama bebendo o orvalho da noite...

Sorrindo, o mestre acenou com a cabeça em sinal de aprovação, e disse: 

"Ouvir o inaudível é ter a calma necessária para se tornar uma pessoa importante. Apenas quando se aprende a ouvir o coração das pessoas, seus sentimentos mudos, seus medos não confessados e suas queixas silenciosas, uma pessoa pode inspirar confiança ao seu redor; entender o que está errado e atender às reais necessidades de cada um”. E acrescentou: 

"A morte de uma relação começa quando as pessoas ouvem apenas as palavras pronunciadas pela boca, sem se atentarem no que vai no interior das pessoas para ouvir os seus sentimentos, desejos e opiniões reais. É preciso, portanto, ouvir o lado inaudível das coisas, o lado não mensurado,mas que tem o seu valor, pois é o lado mais importante do ser humano..."

domingo, 29 de abril de 2018

Buda e o Conceito de Deus


Uma vez aconteceu: Buddha entrou numa aldeia e um homem perguntou-lhe:
“Deus existe?”.
Buddha responde:
“Não, absolutamente”. À tarde, outro homem surgiu e perguntou:
“Deus existe?” Buddha respondeu: ...
“Sim, absolutamente”.
À noite, veio outro homem que lhe perguntou: “Deus existe?” Buddha encerrou os olhos e ficou em profundo silêncio...
O homem também fechou os olhos. Algo surgiu daquele silêncio. Após alguns minutos o homem tocou nos pés de Buddha, fez-lhe uma vênia, prestou o seu respeito e disse: “Foste o primeiro que respondeu à minha pergunta”.

O discípulo de Buddha, Ananda, ficou confuso: “De manhã ele disse não, à tarde disse sim, e à noite não respondeu de todo... Qual é o problema? Qual é a verdade realmente?” Quando Buddha se ia deitar, Ananda disse: “Primeiro responde-me senão não vou conseguir dormir...Tens que ser um pouco mais compassivo comigo – estive contigo todo o dia. Estas três pessoas não sabem sobre as outras respostas, mas eu ouvi-as. Então e eu? Estou confuso..."

Buddha respondeu: “Eu não estava a falar contigo...Tu não perguntaste e eu não TE respondi...O primeiro homem era crente, o segundo ateu, e o terceiro agnóstico... A minha resposta não teve nada a ver com Deus, teve que ver com o questionador. À pessoa que acreditava em Deus eu respondi 'não', porque eu queria que desistisse da ideia que tem de Deus – que é emprestada... Ele ainda não o experienciou senão não tinha perguntado...

A pessoa que acreditava em Deus estava a tentar confirmar as suas crenças... Eu não lhe ia dizer que sim... Não vou confirmar as crenças de quem quer que seja... Tive que lhe destruir as crenças, porque as crenças são barreiras para a verdade. Crentes ou ateus, hindus, cristãos ou muçulmanos, todos os sistemas de crenças são barreiras...

A pessoa com quem fiquei em silêncio foi o verdadeiro inquisidor... Ele não tinha crenças, por isso não havia necessidade de destruir o que quer que fosse... Mantive o silêncio. Foi a minha mensagem para ele: fica em silêncio e descobre... Não perguntes, não há necessidade de perguntar... Não é uma questão que possa ser respondida... Não é um inquérito; é uma busca... Também lhe respondi através do meu silêncio, que ele seguiu de imediato... Eu fechei os olhos, ele fechou os olhos. Eu olhei para dentro, ele olhou para dentro e depois algo surgiu... Foi por isso que ele ficou tão assoberbado e sentiu tanta gratidão – eu não lhe dei uma resposta intelectual...Ele não vinha à procura de respostas intelectuais, estas estão sempre disponíveis a baixo preço... Ele procurava algo existencial, ele precisava de provar...E provou... 

A Meditação também é assim:
silenciar a mente e tornar-se uno...


(Em homenagem ao Festival Wesak, que celebra hoje a iluminação de Buda)

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

A Paz é Agora


Contam os mestres que, certa vez, um guerreiro japonês foi capturado pelos seus inimigos e enclausurado numa masmorra.

Aterrorizado com as imagens do que se seguiria no dia seguinte, o guerreiro não conseguia dormir. Sua mente foi tomada por cenas de interrogatório, tortura e execução.

Foi então que lembrou-se das sábias palavras do seu mestre Zen:

"O 'amanhã' é uma ilusão... o 'amanhã' não é real. A única realidade existente é o 'agora'. O homem sofre por ignorar este ensinamento."

Como um raio de luz, o ensinamento do mestre iluminou sua mente, fazendo-o compreender o sentido amplo daquelas palavras.

O guerreiro ficou em paz e dormiu tranquilamente.

(Conto zen, em homenagem ao Dia Internacional da Paz)