sábado, 15 de dezembro de 2012

Os Sete Eus


No momento mais silencioso da noite, estando eu deitado semiadormecido, os meus sete eus sentaram-se e assim conversaram, murmurando: 

Primeiro Eu:
“Aqui, neste louco, habitei todos estes anos, sem nada para fazer senão renovar a sua dor de dia e recriar a sua mágoa de noite. Não suporto mais o meu destino e agora rebelo-me.”

Segundo Eu:
“Irmão, o teu destino é melhor do que o meu, pois cabe-me a mim ser o eu feliz deste louco. Rio o seu riso e canto os seus momentos felizes e com pés três vezes alados danço os seus pensamentos mais brilhantes. Sou eu quem se quer revoltar contra a fatigante existência.”

Terceiro Eu:
“E então eu, o dominado pelo amor, a marca flamejante da paixão selvagem e dos desejos fantásticos? Sou eu, o doente de amor, quem se quer revoltar contra este louco.”

Quarto Eu:
“De entre todos vós, sou o mais infeliz, porque nada me foi dado senão ódio abominável e aversão destrutiva. Sou eu, o eu semelhante à tempestade, o que nasceu nas cavernas negras do inferno, quem deveria protestar contra servir este louco.”

Quinto Eu:
“Não, sou eu, o pensador, o eu pleno de fantasias, o eu da fome e da sede, o que está condenado a deambular sem descanso em demanda de coisas desconhecidas e ainda por criar; sou eu, não vós, quem se deveria revoltar.”

Sexto Eu:
“E eu, o que trabalha, o obreiro que inspira piedade, que, com mãos pacientes, e olhos sonhadores, molda o dia em imagens e dá aos elementos novas e eternas formas - sou eu, o solitário, quem se deveria revoltar contra este louco irrequieto.”

Sétimo Eu:
“Que estranho que todos vós vos queirais se revoltar contra este homem, tão-só porque cada um tem um destino predeterminado a realizar. Ah! Pudesse assemelhar-me a um de vós, um eu com um destino determinado! Mas não tenho nenhum, sou o que nada faz, aquele que se senta no nenhures e no nunca mudos e vazios, enquanto vós estais ocupados a recriar a vida. Sois vós ou eu, vizinhos, quem se deveria revoltar?"

Quando o sétimo eu assim falou os outros seis olharam-no com piedade, mas nada proferiram; e à medida que a noite se tornava mais profunda, um após outro foi dormir envolto numa nova e feliz submissão.

Mas o sétimo eu ficou a observar e a mirar o nada por detrás de todas as coisas.

(Khalil Gibran)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

A Essência do Zen


Segundo a tradição budista, esta história ocorreu na China, no século VII.

O abade de um grande mosteiro pediu a seus monges que fizessem um poema onde pudessem espelhar a doutrina de Buda. O monge mais antigo, querido e respeitado por todos, assim se expressou:

“O corpo é a árvore Bodhi*,
A mente é como um espelho brilhante
Cuide para mantê-la sempre limpa
Não permitindo que o pó se assente.”


Outro monge simples e quase analfabeto, pediu a um colega letrado para escrever o seu poema:

“O corpo não é a árvore Bodhi
A mente não é como um espelho brilhante
Se não há nada desde o princípio
Onde o pó se assenta?”


O aprofundamento que sugere o poema do iletrado monge reflete a essência dos ensinamentos do Sexto Ancestral da China, o Venerável Mestre Hui-neng e do Zen.

A prática da meditação do Zazen não é para polir o espírito, não é para limpar a mente, não é para esvaziar nada. É tornar-se uno com nossa essência verdadeira, com aquele Eu imenso que contem todos os sentimentos, emoções, percepções, formações mentais, consciência e a forma física.

Retornar à verdade e ao caminho é retornar à vida. Assim falamos em renascer. Deixar morrer idéias abstratas e fantasiosas sobre estar separado do tudo e dos outros e perceber a sabedoria suprema presente em todos os seres, vivenciá-la, tornar-se uno com todos os Budas e Ancestrais do Darma.

Basta perceber que nada é fixo, nada é permanente – isto é o vazio. A mente vazia é aberta e flexível. Chora e ri. Pensa e não pensa. Não precisa ser esvaziada – já é vazia. Sendo vazia é clara e iluminada, em constante atividade e transformação.

Apenas escolha com o que alimentá-la. Você mesma(o) é o programa e o programador, o computador e seus acessórios. Cuide-se bem.
(Recebi tendo como autora a Monja Coen)

*Bodhi = estado desperto, iluminação.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Sinais


Conta-se que, certa vez, um velho árabe analfabeto orava com tanto fervor e com tanto carinho, todas as noites, que o rico chefe de uma grande caravana decidiu chamá-lo à sua presença, perguntando-lhe:
- Por que oras com tanta fé? Como sabes que Deus existe, quando nem ao menos sabes ler?
O crente fiel respondeu:
- Grande senhor, conheço a existência de Nosso Pai Celeste pelos sinais Dele.
- Como assim? - indagou o chefe, admirado.
O servo humilde continuou:
- Quando o senhor recebe uma carta de pessoa ausente, como reconhece quem a escreveu?
- Pela letra.
- Quando o senhor recebe uma jóia, como é que se informa quanto ao autor dela?
- Pela marca do ourives.
O empregado sorriu e acrescentou:
- Quando ouve passos de animais, ao redor da tenda, como sabe, depois, se foi um carneiro, um cavalo um boi?
- Pelo rastro - respondeu o chefe, surpreendido.
Então, o velho crente convidou-o para fora da barraca e, mostrando-lhe o céu, onde a lua brilhava, cercada por multidões de estrelas, exclamou, respeitoso:
- Senhor, aqueles sinais, lá em cima, não podem ser dos homens!
Nesse momento, o orgulhoso caravaneiro, com olhos marejados, ajoelhou-se na areia e começou a orar também. 

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A Simplicidade Zen


Ao ver cinco dos seus alunos voltando do mercado de bicicleta, o Mestre Zen decidiu testá-los:
– Por que vocês estão montando as suas bicicletas?
O primeiro estudante respondeu:
– A bicicleta é para levar este saco de batatas. Eu estou contente por não ter precisado carregá-lo em minhas costas!
O professor elogiou o estudante, dizendo:
– Você é um rapaz inteligente. Quando envelhecer, não vai andar curvado, como eu.
O segundo aluno respondeu:
– Adoro ver o campo e as árvores enquanto pedalo no caminho!
O professor elogiou o estudante:
– Significa que seus olhos estão abertos e você vê o mundo.
O terceiro aluno respondeu:
– Eu fico feliz ao montar minha bicicleta, e começo a cantar.
O professor deu louvor ao terceiro aluno, acrescentando:
– Sua mente vai funcionar com a facilidade de uma roda recém-montada.
O quarto estudante do quarto respondeu:
– Andando de bicicleta, eu me sinto em harmonia com todos os seres.
O professor ficou satisfeito e disse:
– Você está andando no caminho de ouro do não-prejudicar.
O quinto aluno respondeu:
– Eu ando de bicicleta para andar de bicicleta.
O professor sentou-se aos pés do quinto aluno e disse:
– Eu sou seu discípulo.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A Profundidade Zen


– Quais são os tipos de pessoas que necessitam de aperfeiçoamento pessoal? – perguntou o jovem aspirante ao mestre Zen.
– Pessoas como eu – respondeu o mestre.
O aspirante se surpreendeu:
– Um mestre como o senhor precisa de aperfeiçoamento?
– O aperfeiçoamento – explicou o sábio, – é simples como alimentar-se,  banhar-se ou vestir-se...
– Mas – replicou o praticante – fazemos isto todos os dias! Imaginava que o aperfeiçoamento significasse algo muito mais profundo para um mestre!
– O que achas que faço todos os dias? A cada dia, buscando o aperfeiçoamento, coloco atenção, cuidado e honestidade nas ações comuns do meu cotidiano. Nada é mais profundo do que isto.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Amor Atrai Amor

Tempos atrás, uma moça chinesa se casou e foi viver com o marido e a sogra.

Depois de alguns dias, passou a não se entender com a sogra. As personalidades delas eram muito diferentes e a jovem foi se irritando com os hábitos da mulher mais velha, que frequentemente a criticava.

Meses se passaram e as duas cada vez discutiam e brigavam mais. De acordo com a antiga tradição chinesa, a nora tinha que se curvar à sogra e obedecê-la em tudo.

Já não suportando mais a convivência, decidiu a jovem tomar uma atitude e foi visitar um velho sábio, entendido em ervas, que a ouviu e entregou-lhe um pacote de ervas, dizendo:

 - Você não poderá usá-las de uma só vez para se libertar de sua sogra, porque isso causaria suspeitas. Vou lhe dar várias ervas que irão lentamente envenenando-a. A cada dois dias, ponha um pouco destas ervas na comida dela. Agora, para ter certeza de que ninguém suspeitará de você quando ela morrer, tenha muito cuidado e aja com ela de forma amigável. Não discuta e trate-a o mais amorosamente possível, como se ela fosse a pessoa mais importante da vida para você. Siga minhas instruções e seu problema será resolvido.

Muito contente, a moça voltou apressada para casa para começar o projeto de assassinar a sua sogra.

Semanas se passaram e a cada dois dias, servia a comida "especialmente tratada" à sua sogra. Ela sempre lembrava do que o velho sábio havia recomendado sobre evitar suspeitas e assim, controlou o seu temperamento, obedeceu à sogra e tratou-a como se fosse sua própria mãe.

Depois de seis meses, a casa inteira estava com outro astral. A nora mudou o temperamento e quase nunca se aborrecia. Nesses seis meses não tinha tido nenhuma discussão com a sogra, que agora parecia muito mais amável e mais fácil de lidar.

As atitudes da sogra também mudaram e elas passaram a se tratar como mãe e filha. Finalmente, a jovem foi novamente procurar o velho homem para pedir-lhe ajuda:

- Senhor, por favor me ajude a evitar que o veneno mate minha sogra! Ela se transformou numa mulher agradável e eu a amo como se fosse minha mãe. Estou muito arrependida e não quero que ela morra por causa do veneno que eu lhe dei.

O velho sábio sorriu e acenou com a cabeça.

- Não precisa se preocupar. As ervas que eu dei eram vitaminas para melhorar a saúde dela .O veneno estava na sua mente e na sua atitude, mas foi jogado fora e substituído pelo amor que você passou a dar a ela.

Na China existe uma regra dourada que diz: "A pessoa que ama os outros também será amada."

 

sábado, 17 de novembro de 2012

Duelo de Chá

Certa vez, um mestre da cerimônia do chá, no antigo Japão, ofendeu acidentalmente um soldado, parecendo desdenhá-lo. Ao perceber que havia ofendido o outro, o mestre imediatamente pediu desculpas, mas o soldado, muito impetuoso e cheio de orgulho ferido, exigiu que a questão fosse resolvida em um duelo de espadas.
O mestre de chá, que não tinha absolutamente nenhuma experiência com espadas, pediu o conselho de um mestre Zen, que possuía tal habilidade.
Enquanto era servido de chá pelo amigo, o espadachim Zen não pôde evitar notar como o mestre de chá executava sua arte com perfeita concentração e tranquilidade.
"Amanhã," disse o mestre Zen, "quando você duelar com o soldado, segure sua arma sobre sua cabeça como se estivesse pronto para desferir um golpe, e encare-o com a mesma concentração e tranquilidade com que você executa a cerimônia do chá".
No dia seguinte, na exata hora e local escolhidos para o duelo, o mestre de chá seguiu o conselho do mestre Zen. O soldado, já pronto para atacar, olhou por muito tempo em silêncio para a face totalmente atenta porém suavemente calma do mestre de chá. E então, finalmente o soldado abaixou sua espada, desculpou-se por sua arrogância, e partiu sem desferir um único golpe no mestre de chá.