quarta-feira, 4 de junho de 2014

Buda e o Conceito de Deus

Uma vez aconteceu: Buda entrou numa aldeia e um homem perguntou-lhe: “Deus existe?” Buda responde: “Não, absolutamente”.

À tarde, outro homem surgiu e perguntou: “Deus existe?” Buda respondeu: “Sim, absolutamente”.

À noite, veio outro homem que lhe perguntou: “Deus existe?” Buda encerrou os olhos e ficou em profundo silêncio... O homem também fechou os olhos. Algo surgiu daquele silêncio. Após alguns minutos o homem tocou nos pés de Buda, fez-lhe uma vénia, prestou o seu respeito e disse: “Foste o primeiro que respondeu à minha pergunta”.

O discípulo de Buda, Ananda, ficou confuso: “De manhã ele disse não, à tarde disse sim, e à noite não respondeu de todo... Qual é o problema? Qual é a verdade realmente?”

Quando Buda se ia deitar, Ananda disse: “Primeiro responde-me senão não vou conseguir dormir... Tens que ser um pouco mais compassivo comigo – estive contigo todo o dia. Estas três pessoas não sabem sobre as outras respostas, mas eu as ouvi. Então, e eu? Estou confuso”...

Buda respondeu: 

“Eu não estava a falar contigo... Tu não perguntaste e eu não TE respondi... O primeiro homem era crente, o segundo ateu, e o terceiro agnóstico... A minha resposta não teve nada a ver com Deus, teve que ver com o questionador. À pessoa que acreditava em Deus eu respondi não porque eu queria que desistisse da ideia que tem de Deus – que é emprestada... Ele ainda não o experienciou senão não tinha perguntado... A pessoa que acreditava em Deus estava a tentar confirmar as suas crenças... Eu não lhe ia dizer que sim... Não vou confirmar as crenças de quem quer que seja... Tive que lhe destruir as crenças, porque as crenças são barreiras para a verdade. Crentes ou ateus, hindus, cristãos ou muçulmanos, todos os sistemas de crenças são barreiras... A pessoa com quem fiquei em silêncio foi o verdadeiro inquisidor... Ele não tinha crenças, por isso não havia necessidade de destruir o que quer que fosse... Mantive o silêncio. Foi a minha mensagem para ele: fica em silêncio e descobre... Não perguntes, não há necessidade de perguntar... Não é uma questão que possa ser respondida... Não é um inquérito; é uma busca... Também lhe respondi através do meu silêncio, que ele seguiu de imediato... Eu fechei os olhos, ele fechou os olhos. Eu olhei para dentro, ele olhou para dentro e depois algo surgiu... Foi por isso que ele ficou tão assoberbado e sentiu tanta gratidão – eu não lhe dei uma resposta intelectual... Ele não vinha à procura de respostas intelectuais, estas estão sempre disponíveis a baixo preço... Ele procurava algo existencial, ele precisava de provar... E provou... A Meditação também é assim: silenciar a mente e tornar-se uno..."

(Desconheço a autoria)

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Origem do Ikebana

“Um dia, enquanto caminhava, Buda encontrou um ramo de rosas caído no chão e sentiu um profundo amor por essas flores. Pediu a seus discípulos que colocassem esse ramo em um vaso com água, para prolongar o tempo de duração dessas rosas, explicando a importância de respeitar e preservar toda forma de vida. 

A partir desse dia, seus seguidores começaram a colher as flores nos campos e a montar singelos arranjos em homenagem a Buda. E foi assim que começou a surgir a milenar arte japonesa de arranjos florais: o Ikebana.” 

(Do livro Caminho da Flor)

quinta-feira, 24 de abril de 2014

O Rei e os Idosos

Buda, certa vez, contou o seguinte:

Havia um rei que não gostava dos idosos. Considerava que eles eram um estorvo ao país. Assim, assinou um decreto determinando a deportação de todas as pessoas acima de 60 anos. E todo aquele que descumprisse o decreto teria de sofrer severas punições.

Ocorre que um dos seus súditos não teve coragem de mandar seu próprio pai embora e decidiu mantê-lo escondido, numa caverna subterrânea, levando para ele, todos os dias, água e comida. O velho pai, que era um homem sábio, passava o tempo de forma tranquila, lendo as escrituras budistas.

Ao tomar conhecimento do decreto desumano do malvado rei, o Imperador Sakra (o Rei do Céu no Budismo) decidiu enviar uma mensagem ao rei. Esta mensagem continha uma lista de problemas que ele deveria solucionar, sob pena de perder o reino para sempre. Os problemas eram:

O mensageiro do Céu colocou duas cobras em frente ao Palácio e pediu ao Rei que distinguisse a cobra masculina da cobra feminina; depois, ele deu um elefante ao Rei, pedindo-lhe que dissesse o seu peso; daí, colocou uma tigela com água pura em frente ao Palácio e pediu ao Rei que encontrasse outra tigela de água mais valiosa do que aquela; mostrou um pedaço de sândalo e pediu ao Rei para definir onde está a cabeça e o fim daquela madeira; por último, o mensageiro trouxe dois cavalos brancos idênticos, para que o rei dissesse quem era a mãe entre os dois.

Imediatamente, o rei convocou todos os seus oficiais, para ajuda-lo a solucionar os enigmas, mas nenhum deles foi capaz de resolvê-los. Havia um prazo e o rei, preocupado, espalhou cartazes por todo o reino, prometendo recompensas a quem o ajudasse a descobrir as respostas certas.

No último dia do prazo, quando o próprio Imperador Sakra apareceu para determinar o destino do rei, o súdito cujo pai idoso estava escondido, apresentou-se e disse: “Meu pai tem as soluções”. Autorizado pelo imperador, o velho homem aproximou-se.

Para distinguir a cobra masculina da feminina, o homem sábio colocou-as num pedaço de tecido bem macio. Uma delas começou a se mostrar incomodada e tentou escapar. "Esta deve ser a cobra masculina. A outra, que está quieta, é a feminina", disse o velho pai. Problema número um resolvido.

Daí, o velho pediu que o elefante fosse conduzido para dentro de um barco, num rio próximo. O barco afundou um pouco, mas estabilizou-se. Ele fez uma marca da altura da água no lado do barco e deixou o elefante sair dele. Em seguida, foi enchendo o barco de pedras até que elas atingissem a marca feita anteriormente. Então, colocou as pedras na balança e pôde, assim, determinar o peso do elefante. Segundo problema resolvido.

Para solucionar o problema da tigela de água, o velho pai disse: "Tudo o que tenho a fazer é pegar qualquer outra tigela de água e dá-la a alguma pessoa sedenta, como um viajante num deserto, por exemplo. Uma tigela de água que se usa para salvar uma vida é mais valiosa do que uma tigela de água pousada no chão". O problema estava igualmente resolvido.

Quanto ao pedaço de sândalo, o velho homem apenas colocou-o na água. A cabeça, que por si é densa, submergiu; a ponta final, que é leve, flutuou. Mais um problema solucionado.

Para resolver o último problema, o sábio homem juntou algum feno de boa qualidade e colocou-o no chão, entre os dois cavalos. Um deles chutou o feno para o outro e o deixou comer primeiro. “Esta é a mãe!” – disse o velho.

Inteiramente satisfeito com as respostas, o Imperador livrou o reino da destruição. O rei tornou-se iluminado e, ajoelhando-se ante o Imperador, disse: "Posso compreender agora todo o sentido das provas a que meu reino foi submetido. Eu estava cego ao tentar escorraçar meus velhos cidadãos. Peço que me perdoe e abro as portas do meu reino para que todos os idosos voltem para suas casas!”

O Imperador Sakra, satisfeito, retornou para o Céu.

domingo, 30 de março de 2014

Diógenes e as Lentilhas

Estava o filósofo Diógenes comendo lentilhas quando viu o filósofo Aristipo, que vivia, confortavelmente, com base em lisonjear o rei.

E Aristipo disse-lhe:

“Se aprendesses a ser submisso ao rei, não terias que comer esse lixo de lentilhas".

Ao que Diógenes replicou:


“Se tivesses aprendido a comer lentilhas, não terias que bajular o rei".

(Autor: Anthony de Mello, filósofo indiano, psioterapeuta e padre jesuíta, conhecido por mesclar a doutrina judaico-cristã ao budismo)

Nossos Inimigos

Um ex-presidiário de um campo de concentração nazista foi visitar um amigo que havia compartilhado com ele tão penosa experiência.

”Já esqueceste os nazis?” – perguntou ao seu amigo.
“Sim”, disse ele.
“Pois eu não. Ainda continuo a odiá-los com toda a minha alma.”

Seu amigo disse-lhe calmamente:

“Então… ainda te manténs prisioneiro!”.

(Autor: Anthony de Mello, filósofo indiano, psioterapeuta e padre jesuíta, conhecido por mesclar a doutrina judaico-cristã ao budismo).

sábado, 8 de março de 2014

A Lei do Carma

Há cerca de oitocentos anos, havia um príncipe que tinha duas mulheres.

Amava as duas, mas elas não se entendiam e viviam às turras. As queixas constantes de ambas, suas cóleras, seu espírito mesquinho e invejoso, envenenavam a vida do príncipe.

Um dia, cansado de tudo, decidiu romper com suas ilusões e procurar as raízes do próprio ser, abandonando as mulheres, o rico palácio e todas as propriedades que possuía, para levar a existência simples de monge.

A primeira esposa seguiu lhe o exemplo e recolheu-se a um mosteiro feminino. A segunda, que estava grávida, deu à luz, após a partida do marido, a uma belíssima criança, filho dele.

Passaram os anos. Desde a mais tenra idade o filho não cessava de perguntar à mãe:

- Onde está papai? Por que não tenho pai?

E a mãe lhe explicava que ele havia desaparecido sem, contudo, satisfazê-lo. Depois de completar dezesseis anos, o desejo de encontrar o pai se tornou de tal ordem que ele resolveu partir à sua procura. Diante de tamanha insistência, a mãe, que acabara sabendo, afinal, que o príncipe se havia recolhido a um mosteiro da montanha sagrada de Koyasan, decidiu acompanhá-lo até esse lugar. Lá chegando, ela ficou esperando numa estalagem, pois a entrada do mosteiro era vedada às mulheres, enquanto o filho seguiu à procura do pai.

Passou-se o dia, a noite caiu e o garoto adormeceu entre dois troncos de árvores. Na manhã seguinte, uma voz despertou-o:

- Que estás fazendo aqui?

Era um monge alto, de traços altivos e suaves e crânio raspado, que lhe falava.

- Estou procurando meu pai.

- Ah! Mas quem é teu pai?

- É o príncipe de Kyushu, que vive nestas montanhas. É meu pai, quero encontrá-lo!

Conturbado, o monge compreendeu que tinha diante de si o filho único, em cujos traços reconheceu os seus e os da mãe. O coração pulsava tanto que se diria a pique de arrebentar. Quis apertar entre os braços o homenzinho que o fitava com o semblante triste e obstinado. Conteve-se, porém, e não se mexeu. Naquele tempo, as regras observadas pelos monges eram muito severas: quando um leigo decidia tomar a tigela, o bastão e vestir o kesa, tinha de cortar todo e qualquer laço com a existência anterior, sob pena de quebrar os preceitos.

Disse, então, brutalmente, o monge ao menino:

- Sim, teu pai vivia aqui, mas morreu na semana passada.

Os olhos do menino encheram-se de lágrimas e ele abaixou a cabeça, retornando tristemente à estalagem. Chegando lá, ficou sabendo que a mãe falecera, durante a noite, de repentino acesso de febre. Louco de dor, regressou com a escolta à cidade, esperando ver ali sua tia querida. Mas ela também acabava de morrer, vitimada pela epidemia.

Mais solitário do que nunca, sentindo que seu universo havia desabado, veio-lhe à mente o monge que encontrara no alto da montanha, no mosteiro onde a vida fluía mansa, ritmada pela meditação e pelas cerimônias. Voltou para lá. O monge, ao vê-lo surgir no pátio do templo, perguntou:

- Que estás fazendo aqui?

- Quero ser monge. Toda a minha família morreu, a vida já não tem sentido para mim, quero ficar convosco.

O monge compreendeu, então, que não podemos escapar ao nosso destino, ao nosso carma. Podemos talvez modificá-lo, mas ele nos segue sempre, sob uma forma ou outra.

E, assim, o filho se tornou discípulo do pai.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O Tempo e a Esperança

Certa vez, um rei tirano e sem compaixão ameaçou mandar executar um dos súditos do seu reino, que havia cometido uma falta. Ao saber da sentença, o rapaz disse: 

- Espere! Se me deixar viver por mais um ano, vou ensinar seu cavalo a voar. 

O rei duvidou, mas respondeu: 

- Bem, o que tenho a perder?

O rapaz saiu e ouviu de um amigo: 

- Você está louco, não pode ensinar um cavalo a voar!

O homem condenado riu e respondeu: 

- Em um ano, meu amigo, tudo pode acontecer: o cavalo pode morrer, eu posso morrer, o rei pode morrer, ou posso realmente ensinar o cavalo a voar!

Moral da história: o tempo pode dar esperanças.