quarta-feira, 29 de abril de 2015

O Mestre Zen Que Fazia Chover

Sofrendo muito com a seca que castigava seu vilarejo há vários meses, os aldeões do lugar decidiram pedir ajuda a um sábio mestre Zen que por ali passava:

"Será que o senhor, com seu conhecimento e suas preces, teria como trazer a chuva aos nossos campos?"

Calmamente, o mestre não disse nem que sim, nem que não. Apenas pediu que lhe emprestassem uma pequena casa com um pedaço de terra onde pudesse cultivar um jardim.

Assim foi feito e então, todos os dias o velho sábio cuidava do seu pequeno jardim, simplesmente, sem praticar qualquer ritual ou qualquer magia. Até que, depois de algum tempo, os céus se abriram e a chuva começou a cair, generosa, sobre a terra ressecada.

Surpresos, os aldeões foram perguntar ao mestre o segredo do milagre. E ele respondeu, humildemente:

"Só sei que a cada dia, ao cultivar o jardim, eu me voltava mais para dentro de mim mesmo. Não sei por que a chuva resolveu cair, mas tenho certeza que a terra do meu jardim já está preparada. E a de vocês?"

Mantenha Acesa a Chama

Conta-se, nos anos idos, que existia um reino muito próspero, com riquezas de causar espanto nos reinos ao redor. Esse reino era governado por um rei que, apesar de todas as suas posses, era um homem extremamente generoso, desapegado, virtuoso e amado por todos. E quanto mais ele doava ao seu povo, mais os cofres do palácio se enchiam.

Um renunciante de outras terras, sabendo da fama do rei, decidiu visita-lo, para tentar descobrir o seu segredo. Esse renunciante se considerava um sábio, pois estudava as sagradas escrituras e levava uma vida de penitência e renúncia, sempre meditando e nunca se deixando contaminar pelos bens materiais. No entanto, era um homem triste e de alma atormentada.

Ao encontrar o rei, pediu-lhe que revelasse qual era o seu segredo de vida, tendo respondido o monarca:

"Vou entregar-lhe uma lamparina acesa. Com ela na mão, você deverá entrar em todos os cômodos do meu palácio, para que possa ver tudo. Mas com uma condição: se a lamparina se apagar, será sua pena de morte. Terá que cuidar para que ele permaneça acesa durante sua visita”.

O renunciante aceitou o desafio, pegou uma lamparina acesa das mãos do rei e começou sua caminhada pelo palácio real.

Horas mais tarde, concluída a tarefa, voltou à presença do rei. Este, perguntou-lhe:

"E então, você conseguiu ver todas as minhas riquezas?"

O homem, que ainda estava tenso e com os nervos à flor da pele, respondeu:

"Lamentavelmente, Majestade, eu não consegui ver absolutamente nada. Fiquei o tempo todo tão preocupado com a lamparina que, apesar de ter entrado em todos os aposentos, só conseguia olhar para a chama e, por isso, não vi nada mais.”

Com um olhar pleno de benevolência e misericórdia, o rei revelou ao homem:

"Pois é este o meu segredo. Coloco toda a atenção e me esforço para que a chama da minha alma permaneça acesa, mantendo a consciência de que a riqueza externa não me afeta, ou seja: é a minha alma desperta que leva luz para o mundo e não as minhas riquezas materiais.”

sexta-feira, 27 de março de 2015

Tudo Flui e Tudo Muda

Aconteceu de um homem procurar Buda e insultá-lo — deu-lhe um tapa no rosto.

Buda passou a mão pelo rosto e perguntou ao homem: "Tem algo mais a dizer?" — como se ele tivesse dito alguma coisa.

O homem ficou confuso, porque não esperava uma resposta dessas. Foi embora. No dia seguinte voltou novamente, pois não conseguira dormir durante toda a noite. Sentiu que havia feito alguma coisa errada e se sentia culpado.

Na manhã seguinte, chegou, caiu aos pés de Buda e disse: "Perdoe-me."

E Buda disse:

"Quem irá perdoá-lo agora? O homem que você agrediu não está mais aqui... E o homem que veio aqui para agredir também não está — assim, quem perdoará quem? Esqueça isso, agora nada mais se pode fazer.... O que aconteceu não pode ser desfeito — acabou... Porque não há ninguém... as duas partes estão mortas... O que se pode fazer? Você é um homem novo e eu sou um homem novo."

A mensagem mais profunda de Heráclito é esta:

Tudo flui e tudo muda; tudo se move, nada é estático... E quando você se apega a alguma coisa, perde a realidade.

Apegar é o problema, pois a realidade muda e você não flui com ela.

(Do livro A Harmonia Oculta - Fragmentos de Heráclito, Osho)

domingo, 15 de março de 2015

O Homem que Quebrava Pedras

Era uma vez um homem muito simples, que ganhava a vida com uma profissão simples, quebrando pedras. Sua vida corria igualmente simples, até o dia em que ele passou defronte da rica mansão de um homem de negócios. Ao vislumbrar aquele luxo, ele permitiu que o ego invejoso viesse à tona e desejou, do fundo do coração, ser igual ao dono daquela casa.

A fada dos desejos captou seu desejo e, imediatamente, transformou o homem simples num próspero e rico comerciante, cercado de todas as mordomias e opulências que ele jamais sonhara em toda a sua vida.

Muito satisfeito, ele seguiu vivendo até se deparar com um oficial do alto escalão do governo, sendo levado numa liteira de seda por vários empregados submissos, e ainda escoltado por soldados que faziam a sua guarda, afastando a plebe, enquanto todos se curvavam à passagem do poderoso homem.

Imediatamente, o pensamento de inveja voltou à mente do ex-simples homem: “Que poder tem este oficial! Eu também queria muito ser um alto oficial!”

E a fada dos desejos agiu de novo, transformando o então comerciante num oficial do governo, sendo carregado pelos subalternos. Ocorre que era um dia muito quente de verão, de um calor insuportável. O novo oficial, sentindo-se desconfortável, olhou para o sol que refulgia em toda a sua majestade, indiferente à sua insignificante presença lá embaixo.

E o homem pensou: “Ah, poderoso mesmo é o sol! Gostaria muito de ser como ele!”

E – tão rápido como a velocidade da luz, o oficial tornou-se o próprio sol, seguindo sua trajetória pelo espaço e lançando seus raios sobre a terra. Até que, um dia, uma gigantesca nuvem escura se interpôs entre o sol e a terra, levando o sol a pensar que o seu poder não era tão grande quanto o poder daquela nuvem. E ele desejou ser nuvem e transformou-se em nuvem.

Foi feliz como nuvem até ser arrastado por uma ventania forte, de tal força que contra ela a nuvem nada podia fazer. E assim, a nuvem desejou ser o vento e nova metamorfose se fez.

Poderoso, soprou, como um furacão, todas as coisas abaixo e ao redor dele, destelhando casas, derrubando árvores. E prosseguiu, orgulhoso, seu caminho, espalhando temor por onde passava, até que se deparou com algo cuja fortaleza era tão grande, mas tão imensa mesmo, que deixava-a imóvel, sem se mover um milímetro sequer, por mais que o vento tentasse: era uma gigantesca rocha.

Uma vez mais, a inveja apossou-se do vento, fazendo-o desejar ser igual àquela magnífica rocha. E uma vez mais, a fada dos desejos intercedeu em seu favor, e o vento transformou-se numa bela e imensa rocha.

Sentiu-se, então, eterno, pairando acima de tudo, forte e inamovível. Então, ouviu o som de alguma coisa perturbando a sua paz, batendo em sua base. Olhou para baixo e sentiu o seu poder ser despedaçado, desmoronando pedra por pedra. Pensou: “Mas quem pode desafiar o meu poder e a minha fortaleza?”

Foi quando a rocha viu aquela figura minúscula: um simples homem, com seu cinzel, quebrando pedras.

sábado, 6 de setembro de 2014

Estamos de Passagem

Um homem foi visitar um sábio monge.


Ficou, no entanto, surpreso ao ver que o sábio morava numa simples cabana muitos livros, mas poucos móveis: uma cama, uma pequena mesa e um banco.

– Onde estão os seus móveis? Perguntou o homem.

E o sábio, rapidamente, perguntou também:

– E onde estão os seus?

– Os meus? Surpreendeu-se o visitante. – Mas eu estou aqui só de passagem!

– Eu também - respondeu o sábio.

Estamos de passagem. Apenas de passagem. Por isso, cuidemos da nossa alma e dos valores do espírito. Cuidemos de ser felizes com as coisas simples.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Buda e a Compaixão

Dizem que, quando Buda chegou à porta do Supremo, ele parou ali, não podia entrar. A porta estava aberta, os devas, os deuses, estavam prontos para lhe dar as boas-vindas, mas ele não podia entrar.

Os devas lhe perguntaram:

– Por que você está parado aí? Entre. Estamos esperando por você há séculos. Seja bem-vindo. Você voltou para casa.

Buda disse:

– Eu ficarei aqui, tenho de ficar aqui. Até que o último ser humano passe por mim e entre por essa porta, eu não posso entrar.

Esta é uma bela parábola. Buda fez da compaixão o critério da iluminação. Uma vez que a tenha atingido, você não sofre por si, mas pelo outro.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

A Pequena Alma e o Sol

Era uma vez, em tempo nenhum, uma Pequena Alma que disse a Deus:
— Eu sei quem sou!
E Deus disse:
— Que bom! Quem és tu?
E a Pequena Alma gritou:
— Eu sou Luz
E Deus sorriu.
— É isso mesmo! — exclamou Deus. — Tu és Luz!

A Pequena Alma ficou muito contente, porque tinha descoberto aquilo que todas as almas do Reino deveriam descobrir.
— Uauu, isto é mesmo bom! — disse a Pequena Alma.

Mas, passado pouco tempo, saber quem era já não lhe chegava. A pequena Alma sentia-se agitada por dentro, e agora queria ser quem era. Então foi ter com Deus (o que não é má ideia para qualquer alma que queira ser Quem Realmente É, e disse:
— Olá Deus! Agora que sei Quem Sou, posso sê-lo?

E Deus disse:
— Quer dizer que queres ser Quem já És?
— Bem, uma coisa é saber Quem Sou, e outra coisa é sê-lo mesmo. Quero sentir como é ser a Luz! — respondeu a pequena Alma.
— Mas tu já és Luz — repetiu Deus, sorrindo outra vez.
— Sim, mas quero senti-lo! — gritou a Pequena Alma.
— Bem, acho que já era de esperar. Tu sempre foste aventureira — disse Deus com uma risada. Depois a sua expressão mudou.
— Há só uma coisa…
— O quê? — perguntou a Pequena Alma.
— Bem, não há nada para além da Luz. Porque eu não criei nada para além daquilo que tu és; por isso, não vai ser fácil experimentares-te como Quem És, porque não há nada que tu não sejas.
— Hã? — disse a Pequena Alma, que já estava um pouco confusa.
— Pensa assim: tu és como uma vela ao Sol. Estás lá sem dúvida. Tu e mais milhões, zilhões de outras velas que constituem o Sol. E o Sol não seria o Sol sem vocês. Não seria um sol sem uma das suas velas… e isso não seria de todo o Sol, pois não brilharia tanto. E no entanto, como podes conhecer-te como a Luz quando estás no meio da Luz — eis a questão.
— Bem, tu és Deus. Pensa em alguma coisa! — disse a Pequena Alma mais animada.

Deus sorriu novamente.
— Já pensei. Já que não podes ver-te como a Luz quando estás na Luz, vamos rodear-te de escuridão — disse Deus.
— O que é a escuridão? perguntou a Pequena Alma.
— É aquilo que tu não és — replicou Deus.
— Eu vou ter medo do escuro? — choramingou a Pequena Alma.
— Só se o escolheres. Na verdade não há nada de que devas ter medo, a não ser que assim o decidas. Porque estamos inventando tudo. Estamos fingindo.
— Ah! — disse a Pequena Alma, sentindo-se logo melhor.

Depois Deus explicou que, para se experimentar o que quer que seja, tem de aparecer exatamente o oposto.
— É uma grande dádiva, porque sem ela não poderíamos saber como nada é — disse Deus — Não poderíamos conhecer o Quente sem o Frio, o Alto sem o Baixo, o Rápido sem o Lento. Não poderíamos conhecer a Esquerda sem a Direita, o Aqui sem o Ali, o Agora sem o Depois. E por isso, — continuou Deus — quando estiveres rodeada de escuridão, não levantes o punho nem a voz para amaldiçoar a escuridão. Sê antes uma Luz na escuridão, e não fiques furiosa com ela. Então saberás Quem Realmente És, e os outros também o saberão. Deixa que a tua Luz brilhe tanto que todos saibam como és especial!
— Então posso deixar que os outros vejam que sou especial? — perguntou a Pequena Alma.
— Claro! — Deus riu-se. — Claro que podes! Mas lembra-te de que “especial” não quer dizer “melhor”! Todos são especiais, cada qual à sua maneira! Só que muitos esqueceram-se disso. Esses apenas vão ver que podem ser especiais quando tu vires que podes ser especial!
— Uau — disse a Pequena Alma, dançando e saltando e rindo e pulando. — Posso ser tão especial quanto quiser!
— Sim, e podes começar agora mesmo — disse Deus, também dançando e saltando e rindo e pulando juntamente com a Pequena Alma
— Que parte de especial é que queres ser?
— Que parte de especial? — repetiu a Pequena Alma. — Não estou a perceber.
— Bem, — explicou Deus — ser a Luz é ser especial, e ser especial tem muitas partes. É especial ser bondoso. É especial ser delicado. É especial ser criativo. É especial ser paciente. Conheces alguma outra maneira de ser especial?

A Pequena Alma ficou em silêncio por um momento.
— Conheço imensas maneiras de ser especial! — exclamou a Pequena Alma — É especial ser prestável. É especial ser generoso. É especial ser simpático. É especial ser atencioso com os outros.
— Sim! — concordou Deus — E tu podes ser todas essas coisas, ou qualquer parte de especial que queiras ser, em qualquer momento. É isso que significa ser a Luz.
— Eu sei o que quero ser, eu sei o que quero ser! — proclamou a Pequena Alma com grande entusiasmo. — Quero ser a parte de especial chamada “perdão”. Não é ser especial alguém que perdoa?
— Ah, sim, isso é muito especial, assegurou Deus à Pequena Alma.
— Está bem. É isso que eu quero ser. Quero ser alguém que perdoa. Quero experimentar-me assim — disse a Pequena Alma.
— Bom, mas há uma coisa que devias saber — disse Deus.

A Pequena Alma já começava a ficar um bocadinho impaciente. Parecia haver sempre alguma complicação.
— O que é? — suspirou a Pequena Alma.
— Não há ninguém a quem perdoar.
— Ninguém? A Pequena Alma nem queria acreditar no que tinha ouvido.
— Ninguém! — repetiu Deus. Tudo o que Eu fiz é perfeito. Não há uma única alma em toda a Criação menos perfeita do que tu. Olha à tua volta.

Foi então que a Pequena Alma reparou na multidão que se tinha aproximado. Outras almas tinham vindo de todos os lados — de todo o Reino — porque tinham ouvido dizer que a Pequena Alma estava a ter uma conversa extraordinária com Deus, e todas queriam ouvir o que eles estavam a dizer. Olhando para todas as outras almas ali reunidas, a Pequena Alma teve de concordar. Nenhuma parecia menos maravilhosa, ou menos perfeita do que ela. Eram de tal forma maravilhosas, e a sua Luz brilhava tanto, que a Pequena Alma mal podia olhar para elas.
— Então, perdoar quem? — perguntou Deus.
— Bem, isto não vai ter piada nenhuma! — resmungou a Pequena Alma — Eu queria experimentar-me como Aquela que Perdoa. Queria saber como é ser essa parte de especial. E a Pequena Alma aprendeu o que é sentir-se triste. 

Mas, nesse instante, uma Alma Amiga destacou-se da multidão e disse:
— Não te preocupes, Pequena Alma, eu vou ajudar-te — disse a Alma Amiga.
— Vais? — a Pequena Alma animou-se. — Mas o que é que tu podes fazer?
— Ora, posso dar-te alguém a quem perdoares!
— Podes?
— Claro! — disse a Alma Amiga alegremente. — Posso entrar na tua próxima vida física e fazer qualquer coisa para tu perdoares.
— Mas porquê? Porque é que farias isso? — perguntou a Pequena Alma. — Tu, que és um ser tão absolutamente perfeito! Tu, que vibras a uma velocidade tão rápida a ponto de criar uma Luz de tal forma brilhante que mal posso olhar para ti! O que é que te levaria a abrandar a tua vibração para uma velocidade tal que tornasse a tua Luz brilhante numa luz escura e baça? O que é que te levaria a ti, que danças sobre as estrelas e te moves pelo Reino à velocidade do pensamento, a entrar na minha vida e a tornares-te tão pesada a ponto de fazeres algo de mal?
— É simples — disse a Alma Amiga. — Faço-o porque te amo.

A Pequena Alma pareceu surpreendida com a resposta.
— Não fiques tão espantada — disse a Alma Amiga — tu fizeste o mesmo por mim. Não te lembras? Ah, nós já dançamos juntas, tu e eu, muitas vezes. Dançamos ao longo das eternidades e através de todas as épocas. Brincamos juntas através de todo o tempo e em muitos sítios. Só que tu não te lembras. Já fomos ambas o Todo. Fomos o Alto e o Baixo, a Esquerda e a Direita. Fomos o Aqui e o Ali, o Agora e o Depois. Fomos o Masculino e o Feminino, o Bom e o Mau — fomos ambas a vítima e o vilão. Encontramo-nos muitas vezes, tu e eu; cada uma trazendo à outra a oportunidade exata e perfeita para Expressar e Experimentar Quem Realmente Somos.
— E assim, — a Alma Amiga explicou mais um bocadinho — eu vou entrar na tua próxima vida física e ser a “má” desta vez. Vou fazer alguma coisa terrível, e então tu podes experimentar-te como Aquela Que Perdoa.
— Mas o que é que vais fazer que seja assim tão terrível? — perguntou a Pequena Alma, um pouco nervosa.
— Oh, havemos de pensar nalguma coisa — respondeu a Alma Amiga, piscando o olho.

Então a Alma Amiga pareceu ficar séria, disse numa voz mais calma:
— Mas tens razão acerca de uma coisa, sabes?
— Sobre o quê? — perguntou a Pequena Alma.
— Eu vou ter de abrandar a minha vibração e tornar-me muito pesada para fazer esta coisa não muito boa. Vou ter de fingir ser uma coisa muito diferente de mim. E por isso, só te peço um favor em troca.
— Oh, qualquer coisa, o que tu quiseres! — exclamou a Pequena Alma, e começou a dançar e a cantar: — Eu vou poder perdoar, eu vou poder perdoar!

Então a Pequena Alma viu que a Alma Amiga estava muito quieta.
— O que é? — perguntou a Pequena Alma.
— O que é que eu posso fazer por ti? És um anjo por estares disposta a fazer isto por mim!
— Claro que esta Alma Amiga é um anjo! — interrompeu Deus, — são todas! Lembra-te sempre: Não te enviei senão anjos.

E então a Pequena Alma quis mais do que nunca satisfazer o pedido da Alma Amiga.
— O que é que posso fazer por ti? — perguntou novamente a Pequena Alma.
— No momento em que eu te atacar e atingir, — respondeu a Alma Amiga — no momento em que eu te fizer a pior coisa que possas imaginar, nesse preciso momento…
— Sim? — interrompeu a Pequena Alma
— Sim?

A Alma Amiga ficou ainda mais quieta.
— Lembra-te de Quem Realmente Sou.
— Oh, não me hei-de esquecer! — gritou a Pequena Alma — Prometo! Lembrar-me-ei sempre de ti tal como te vejo aqui e agora.
— Que bom, — disse a Alma Amiga — porque, sabes, eu vou estar a fingir tanto, que eu própria me vou esquecer. E se tu não te lembrares de mim tal como eu sou realmente, eu posso também não me lembrar durante muito tempo. E se eu me esquecer de Quem Sou, tu podes esquecer-te de Quem És, e ficaremos as duas perdidas. Então, vamos precisar que venha outra alma para nos lembrar às duas Quem Somos.
— Não vamos, não! — prometeu outra vez a Pequena Alma. — Eu vou lembrar-me de ti! E vou agradecer-te por esta dádiva — a oportunidade que me dás de me experimentar como Quem Eu Sou.

E assim o acordo foi feito. E a Pequena Alma avançou para uma nova vida, entusiasmada por ser a Luz, que era muito especial, e entusiasmada por ser aquela parte especial a que se chama Perdão. E a Pequena Alma esperou ansiosamente pela oportunidade de se experimentar como Perdão, e por agradecer a qualquer outra alma que o tornasse possível.

E, em todos os momentos dessa nova vida, sempre que uma nova alma aparecia em cena, quer essa nova alma trouxesse alegria ou tristeza — principalmente se trouxesse tristeza — a Pequena Alma pensava no que Deus lhe tinha dito:
— Lembra-te sempre, — Deus aqui tinha sorrido — não te enviei senão anjos.

FONTE: Um conto francês, de Neale Donald Walsch.