terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Desperte seu Discernimento

O monge zen todas as manhãs praticava seu tai chi chuan e, após, atendia aos clamores de quem vinha lhe pedir socorro. A menina assustada rogava ajuda para os pais que brigavam. “Tome esta vara e bata neles quando começarem a brigar”.

A jovem apaixonada e desprezada, caindo em lágrimas, pedia um lenitivo. “Tome esta vara e bata nele”.

O homem que já não aguentava os credores batendo em sua porta e exigindo o pagamento das dívidas pedia uma solução. “Tome esta vara e bata neles”.

A mulher que tinha um filho ladrão, dizia já não saber o que fazer. “Tome esta vara e bata nele”.

Nenhum deles contestou a orientação. Até que chegou um jovem, dizendo que queria ser monge. “Tome esta vara e bata em mim”.

O jovem depositou a vara no chão, deu as costas, dispondo-se a seguir seu caminho, quando escutou: “Está aprovado, pode entrar”.

Nem tudo que nos aconselham é prudente seguir. Há casos em que devemos proceder exatamente ao contrário do que nos dizem. Sua mente passa a ser soberana, quando aprende a decidir por si mesma. Se tiver que ouvir uma opinião, ouça dez opiniões diferentes e depois vá refletir. Ouvir não significa obedecer ou seguir, mas ponderar, ajuizar e encontrar a sua própria maneira de ser, estar e acontecer.

(Nilsa Alarcon e J. C. Alarcon, extraído do livro ainda em edição “A Moringa Mágica”).

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

O Outro Lado da Vida

Um discípulo procurou seu mestre e perguntou:

- Mestre, como posso saber se existe mesmo vida após a morte?

O Mestre olhou para ele e respondeu:

- Encontre-me novamente após o sol se pôr.

O discípulo, meio contrariado, esperou algumas horas, ansioso pela resposta.

Logo que o sol se pôs, o discípulo voltou à presença do mestre. Assim que o discípulo apareceu, o mestre afirmou:

- Você percebeu o que houve? O sol morreu…

O discípulo ficou sem entender nada. Julgou que se tratava de uma brincadeira do mestre.

- Como assim, mestre? Perguntou o discípulo. O sol não morreu, ele apenas se pôs no horizonte.

O mestre disse:

- Exatamente. O mesmo ocorre com todos nós após a morte. Se confiássemos apenas em nossa visão física, nos pareceria que o sol deixou de existir atrás da montanha. Mas no instante em que ele “morreu” no horizonte para nós, ele nasceu do outro lado do mundo, e se tornou visível para outras pessoas. O mesmo princípio rege a nossa alma. Após a morte do corpo, ela parece desaparecer aos nossos olhos, mas nasce no plano espiritual.
A chama do espírito não se apaga, ela apenas passa a brilhar no outro lado da vida.

Autor: Hugo Lapa

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

O Zen e a Comparação

Certo dia, um Samurai, que era um guerreiro muito orgulhoso, veio ver um Mestre Zen. Embora fosse muito famoso, ao olhar o Mestre, sua beleza e o encanto daquele momento, o Samurai sentiu-se repentinamente inferior.

Ele então disse ao Mestre:

“Por que estou me sentindo inferior? Apenas um momento atrás, tudo estava bem. Quando aqui entrei, subitamente me senti inferior e jamais me sentira assim antes. Encarei a morte muitas vezes, mas nunca experimentei medo algum. Por que estou me sentindo assustado agora?”

O Mestre falou:

“Espere. Quando todos tiverem partido, responderei.”

Durante todo o dia, pessoas chegavam para ver o Mestre, e o Samurai estava ficando mais e mais cansado de esperar. Ao anoitecer, quando o quarto estava vazio, o Samurai perguntou novamente:

“Agora o senhor pode me responder por que me sinto inferior?”

O Mestre o levou para fora. Era uma noite de lua cheia e a lua estava justamente surgindo no horizonte. Ele disse:

“Olhe para estas duas árvores: a árvore alta e a árvore pequena ao seu lado. Ambas estiveram juntas ao lado de minha janela durante anos e nunca houve problema algum. A árvore menor jamais disse à maior: ‘Por que me sinto inferior diante de você?’ Esta árvore é pequena e aquela é grande – este é o fato, e nunca ouvi sussurro algum sobre isso.”

O Samurai então argumentou:

“Isto se dá porque elas não podem se comparar.”

E o Mestre replicou:

“Então não precisa me perguntar. Você sabe a resposta. Quando você não compara, toda a inferioridade e superioridade desaparecem. Você é o que é e simplesmente existe. Um pequeno arbusto ou uma grande e alta árvore, não importa, você é você mesmo. Uma folhinha da relva é tão necessária quanto a maior das estrelas. O canto de um pássaro é tão necessário quanto qualquer Buda, pois o mundo será menos rico se este canto desaparecer. Simplesmente olhe à sua volta. Tudo é necessário e tudo se encaixa. É uma unidade orgânica: ninguém é mais alto ou mais baixo, ninguém é superior ou inferior. Cada um é incomparavelmente único. Você é necessário e basta. Na Natureza, tamanho não é diferença. Tudo é expressão igual de vida!"

Fonte: http://projetophronesis.com/2009/02/12/o-samurai-e-o-mestre-zen/

terça-feira, 11 de agosto de 2015

A Pequena Luz Azul

Rafi percorreu o mundo por muitos anos em busca de Deus... se Deus existia, queria encontrá-lo. Senti-lo em seu coração. Conheceu muitos lugares sagrados. Viveu com pessoas que oravam a Deus o dia inteiro; outras que entoavam cantos sagrados a Ele, outras que dançavam para Ele, outras que jejuavam... mas nunca sentira a real presença de Deus em seu ser.

Um dia, ao entardecer, cansado de tanto procurar por Deus, sentou-se à beira do rio e se pôs a chorar. Um choro longo e profundo. Próprio daqueles que tiveram suas esperanças fortemente ameaçadas pela força contrária à sua vontade. Perguntava-se, entre soluços, como fora possível tantos anos de estudos, meditações, jejuns, danças... e nunca ter sentido a presença de Deus em seu ser. E agora? O que iria fazer? O que iria buscar? Não, não havia mais nada a ser buscado... Deus também não estaria lá. Estava esgotado... chorou tanto que acabou adormecendo ao lado do rio. Em seu sono profundo, um sonho, um belo e raro sonho...

Estava dormindo à beira do rio e acordou de repente com a presença de uma pequena luz azul, pairando feito paina à sua frente e Rafi pôde sentir, pela primeira vez em sua vida, um sentimento diferente, puro e luminoso. Rafi levantou-se, secando as lágrimas que ainda persistiam e sentiu aquela luz envolvê-lo mansamente. Rafi sentiu uma enorme paz em seu ser e aos poucos pôde ouvir uma voz serena vinda daquela luz bem próxima aos seus ouvidos, ao seu coração... Ela dizia:

“Se choras por mim, sentirás dificuldade em me encontrar. O único caminho para chegares até mim é através da tua alegria, do teu coração aberto, da tua paciência e da tua fidelidade. Para que eu floresça pouco a pouco nos campos do teu coração, é preciso amar os caminhos que te conduzem até mim com todas as suas lentidões, com suas mudanças repentinas, com seus desvios, sem apressá-lo... Eu desconheço o tempo, mas conheço cada fio de luz que te compõe. Viver na Minha Presença significa engrenar no ritmo que move todas as coisas do Céu e da Terra para assim, aprender a desfrutar de cada instante. Tu és a Minha Criança! Protege-te docemente, descansa teu ser, que te cuido Eu. Ter fé é viver o grande no pequeno. Até o grande Carvalho, um dia, foi suavíssima penugem. Saiba que aprecio muito mais a fidelidade às coisas pequenas, que estão ao teu alcance, do que às grandes que de ti não dependem. Relaxa teu espírito, Eu estou contigo. Sê humilde em tuas aspirações e encontrarás tudo de que necessitas para que não duvides da Minha Presença em teu ser.”

Rafi chorava sem parar. Seu coração fora tocado fortemente. Sim, aquela luz era Deus a lhe falar!

“És a minha criatura, que tanto amo. Encerra tua dor, pois me tens contigo eternamente.”

E assim, a luz desceu silenciosa sobre as mãos de Rafi.

Quando Rafi acordou, já era noite. Sentia em suas narinas o vapor doce da água do rio. A noite era fresca e a lua mansa brilhava no céu. Lembrou-se do seu sonho ao ver que uma pedra, pequena e azul, ainda brilhava em suas mãos.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Confiando na Alegria

No tempo do Buda vivia uma velha mendiga chamada Confiando na Alegria. Ela observava os reis, príncipes e o povo em geral fazendo oferendas ao Buda e a seus discípulos, e não havia nada que quisesse mais do que poder fazer o mesmo. 

Saiu então pedindo esmolas, mas, no fim do dia não havia conseguido mais do que uma moedinha. Levou a moedinha ao mercado para tentar trocá-la por algum óleo, mas o vendedor lhe disse que aquilo não dava para comprar nada. Mas quando o vendedor soube que ela queria fazer uma oferenda ao Buda, cheio de pena, deu-lhe o óleo. 

A mendiga foi para o mosteiro e acendeu a lâmpada. Colocou-a diante do Buda e fez o seguinte pedido: “ nada tenho a oferecer senão esta pequena lâmpada. Mas, com esta oferenda, possa eu no futuro ser abençoada com a Lâmpada da Sabedoria. Possa eu libertar todos os seres das suas trevas, purificar todos os seus obscurecimentos e levá-los à Iluminação”.

Durante a noite, o óleo de todas as lâmpadas havia acabado, mas a lâmpada da mendiga ainda queimava na alvorada, quando um discípulo chegou para recolher as lâmpadas. Ao ver aquela única lâmpada ainda brilhando, cheia de óleo e com pavio novo, pensou: “Não há razão para que essa lâmpada continue ainda queimando durante o dia” e tentou apagar a chama com os dedos, mas foi inútil. Tentou abafá-la com suas vestes, mas ela ainda ardia. 

O Buda, que o observava há algum tempo, disse: — Maudgalyayana: você quer apagar essa lâmpada? Não vai conseguir. Não conseguiria nem movê-la daí, que dirá apagá-la. Se jogasse nela toda a água dos oceanos, ainda assim não adiantaria. A água de todos os rios e lagos do mundo não poderia extinguir esta chama.

- Por que não? - Perguntou o discípulo de Buda.
- Porque ela foi oferecida com devoção e com pureza de coração e de mente. Essa motivação produziu um enorme benefício.

Quando o Buda terminou de falar, a mendiga se aproximou e ele profetizou que no futuro ela se tornaria um Perfeito Buda e seria conhecido como Luz da Lâmpada.


(Extraído do link: http://contoseparabolas.no.sapo.pt/03outros/bud.htm)

*Hoje comemora-se o nascimento, iluminação e morte de Buda. É o Festival de Wesak. 

quarta-feira, 29 de abril de 2015

O Mestre Zen Que Fazia Chover

Sofrendo muito com a seca que castigava seu vilarejo há vários meses, os aldeões do lugar decidiram pedir ajuda a um sábio mestre Zen que por ali passava:

"Será que o senhor, com seu conhecimento e suas preces, teria como trazer a chuva aos nossos campos?"

Calmamente, o mestre não disse nem que sim, nem que não. Apenas pediu que lhe emprestassem uma pequena casa com um pedaço de terra onde pudesse cultivar um jardim.

Assim foi feito e então, todos os dias o velho sábio cuidava do seu pequeno jardim, simplesmente, sem praticar qualquer ritual ou qualquer magia. Até que, depois de algum tempo, os céus se abriram e a chuva começou a cair, generosa, sobre a terra ressecada.

Surpresos, os aldeões foram perguntar ao mestre o segredo do milagre. E ele respondeu, humildemente:

"Só sei que a cada dia, ao cultivar o jardim, eu me voltava mais para dentro de mim mesmo. Não sei por que a chuva resolveu cair, mas tenho certeza que a terra do meu jardim já está preparada. E a de vocês?"

Mantenha Acesa a Chama

Conta-se, nos anos idos, que existia um reino muito próspero, com riquezas de causar espanto nos reinos ao redor. Esse reino era governado por um rei que, apesar de todas as suas posses, era um homem extremamente generoso, desapegado, virtuoso e amado por todos. E quanto mais ele doava ao seu povo, mais os cofres do palácio se enchiam.

Um renunciante de outras terras, sabendo da fama do rei, decidiu visita-lo, para tentar descobrir o seu segredo. Esse renunciante se considerava um sábio, pois estudava as sagradas escrituras e levava uma vida de penitência e renúncia, sempre meditando e nunca se deixando contaminar pelos bens materiais. No entanto, era um homem triste e de alma atormentada.

Ao encontrar o rei, pediu-lhe que revelasse qual era o seu segredo de vida, tendo respondido o monarca:

"Vou entregar-lhe uma lamparina acesa. Com ela na mão, você deverá entrar em todos os cômodos do meu palácio, para que possa ver tudo. Mas com uma condição: se a lamparina se apagar, será sua pena de morte. Terá que cuidar para que ele permaneça acesa durante sua visita”.

O renunciante aceitou o desafio, pegou uma lamparina acesa das mãos do rei e começou sua caminhada pelo palácio real.

Horas mais tarde, concluída a tarefa, voltou à presença do rei. Este, perguntou-lhe:

"E então, você conseguiu ver todas as minhas riquezas?"

O homem, que ainda estava tenso e com os nervos à flor da pele, respondeu:

"Lamentavelmente, Majestade, eu não consegui ver absolutamente nada. Fiquei o tempo todo tão preocupado com a lamparina que, apesar de ter entrado em todos os aposentos, só conseguia olhar para a chama e, por isso, não vi nada mais.”

Com um olhar pleno de benevolência e misericórdia, o rei revelou ao homem:

"Pois é este o meu segredo. Coloco toda a atenção e me esforço para que a chama da minha alma permaneça acesa, mantendo a consciência de que a riqueza externa não me afeta, ou seja: é a minha alma desperta que leva luz para o mundo e não as minhas riquezas materiais.”