terça-feira, 4 de agosto de 2020

A Lenda das Areias



"Um dia precisaremos cruzar o deserto..."

Vindo desde as suas origens em distantes montanhas, após passar por inúmeros acidentes de terreno nas regiões campestres, um rio finalmente alcançou as areias do deserto.

E do mesmo modo como vencera as outras barreiras, o rio tentou atravessar esta de agora, mas se deu conta de que suas águas mal tocavam a areia nela desapareciam.

Estava convicto, no entanto, de que fazia parte de seu destino cruzar aquele deserto, embora não visse como fazê-lo.

Então uma voz misteriosa, saída do próprio deserto arenoso, sussurrou:

- O vento cruza o deserto, o mesmo pode fazer o rio.

O rio objetou estar se arremessando contra as areias, sendo assim absorvido, enquanto o vento podia voar, conseguindo dessa maneira atravessar o deserto.

- Arrojando-se com violência como vem fazendo não conseguirá cruzá-lo. Assim desaparecerá ou se transformará num pântano. Deve permitir que o vento o conduza a seu destino.

- Mas como isso pode acontecer?

- Consentindo em ser absorvido pelo vento.

Tal sugestão não era aceitável para o rio. Afinal de contas, ele nunca fora absorvido até então. Não desejava perder a sua individualidade. Uma vez a tendo perdido, como se poderá saber se a recuperaria mais tarde?

- O vento desempenha essa função - disseram as areias. - eleva a água, a conduz sobre o deserto e depois a deixa cair. Caindo em forma de chuva, a água novamente se converte num rio.

- Como posso saber que isto é verdade?

- Pois assim é, e se não acredita, não se tornará outra coisa senão um pântano, e ainda isto levaria muitos e muitos anos; e um pântano não é certamente a mesma coisa que um rio.

- Mas não posso continuar sendo o mesmo rio que sou agora?

- Você não pode, em caso algum, permanecer assim - retrucou a voz. - Sua parte essencial é transportada e forma um rio novamente. Você é chamado assim ainda hoje por não saber qual a sua parte essencial.

Ao ouvir tais palavras, certos ecos começaram a ressoar nos pensamentos mais profundos do rio. Recordou vagamente um estágio em que ele, ou uma parte dele, não sabia qual, fora transportada nos braços do vento.

Também se lembrou, ou lhe pareceu assim, de que era isso o que devia fazer, conquanto não fosse a coisa mais natural.

E o rio elevou então seus vapores nos acolhedores braços do vento, que suave e facilmente o conduziu para o alto, e para bem longe, deixando-o cair suavemente tão logo tinham alcançado o topo de uma montanha, milhas e milhas mais distante.

E porque tivera suas dúvidas, o rio pode recordar e gravar com mais firmeza em sua mente os detalhes daquela sua experiência. E ponderou: - Sim, agora conheço a minha verdadeira identidade.

O rio estava fazendo seu aprendizado, mas as areias sussurraram:

- Nós temos o conhecimento porque vemos essa operação ocorrer dia após dia, e porque nós, as areias, nos estendemos por todo o caminho que vai desde as margens do rio até a montanha.

E é por isso que se diz que o caminho pelo qual o Rio da Vida tem de seguir em sua travessia está escrito nas Areias.

(Conto sufi do livro "O Buscador da Verdade", de Idries Shah)

Simplesmente Ame


Um jovem foi visitar um sábio conselheiro e contou-lhe sobre as dúvidas que tinha a respeito do AMOR. O sábio escutou-o, olhou-o nos olhos e disse-lhe apenas uma coisa:

— Ame.

E logo se calou!

Disse o rapaz:

— Mas, ainda tenho as dúvidas…

— Ame, disse-lhe novamente o sábio!

E, diante do desconcerto do jovem, depois de um breve silêncio, disse-lhe o seguinte:

— Meu filho, amar é uma decisão, não um sentimento! Amar é dedicação e entrega; amar é um verbo e o fruto dessa ação é o amor! O amor é um exercício de jardinagem! Arranque o que faz mal, prepare o terreno, semeie, seja paciente, regue e cuide. Esteja preparado porque haverá pragas, secas ou excessos de chuvas, mas nem por isso abandone o seu jardim. Ame, ou seja, aceite, valorize, respeite, dê afeto, ternura, admire e compreenda.
Simplesmente. Ame!!! Sabes por quê?
Porque a inteligência, sem amor, te faz perverso;
A justiça, sem amor, te faz implacável;
A diplomacia, sem amor, te faz hipócrita;
O êxito, sem amor, te faz arrogante;
A riqueza, sem amor, te faz avarento;
A docilidade, sem amor te faz servil;
A pobreza, sem amor, te faz orgulhoso;
A beleza, sem amor, te faz ridículo;
A autoridade, sem amor, te faz tirano;
O trabalho, sem amor, te faz escravo;
A simplicidade, sem amor, te deprecia;
E A VIDA SEM AMOR, NÃO TEM SENTIDO.
Apenas…. Ame ❤

(Conto israelita)

quarta-feira, 29 de julho de 2020

O Deus Mara encontra a Verdade


Certo dia Mara, deus da ignorância e do mal no budismo, viajava pelos vilarejos da Índia com seus assistentes quando encontrou um homem caminhando em meditação cujo rosto, maravilhado, estava resplandecente. O homem parecia haver acabado de descobrir algo no chão diante de si. 

Os assistentes de Mara perguntaram ao deus o que o homem encontrara, e Mara respondeu:

- Uma verdade.
- Isso não vos incomoda, ó deus do mal, quando alguém encontra uma verdade?
- Nem um pouco – respondeu Mara – logo em seguida eles costumam transformá-la numa crença.

(Histórias da Alma, histórias do coração, C. Feldman – J. Kornifield)

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

O Lago e a Paz


Um samurai depois de ter sido derrotado numa importante prova de habilidades, vagou sem rumo com os pensamentos confusos, enfurecido, sem querer aceitar a derrota. 

Parou em um lago que encontrou no seu caminho e lançou violentamente uma pedra contra as suas águas, que se agitaram violentamente. 

O samurai ainda com raiva e ressentido, percebeu algo e refletiu: “Mesmo ofendido e perturbado com a pedra que atirei, em instantes o lago se recompôs, retornando à tranquilidade inicial."

O samurai concluiu que mesmo que lançasse todas as pedras da redondeza, pequenas ou grandes, o lago sempre retornaria à sua natural tranquilidade, como se nunca tivesse sido atingido por nada.

Ao refletir sobre isso o homem evocou "Mizuno Kami" (o Espírito das Águas):

“Espírito das Águas, por que quando meu coração é ferido ficam cicatrizes e este lago, em instantes apaga todos os vestígios da agressão sofrida”?

Respondeu o “Espírito das Águas”:

“O Lago faz com que a pedra se perca na sua grandeza e profundidade, logo, é como ser atingido por nada. O lago conserva consigo o silêncio, e não as queixas. Eis o segredo de sua serenidade”.

O Samurai curvou respeitosamente em gratidão para o lago e declarou ao “Espírito das águas”:

“Hoje aprendi um grande ensinamento com as águas silenciosas de um lago!”

sábado, 5 de outubro de 2019

Uma Lição de Gratidão



Conta-se que, nos tempos idos, havia um rei que tinha dez cães selvagens. Quando um servo cometia algum erro, ele mandava jogá-lo aos cães, para ser devorado.

Um dia, um dos servos mais antigos cometeu um deslize. Imediatamente, o implacável rei ordenou que ele fosse jogado aos cães.

O servo atreveu-se a pedir: "Eu o servi por dez anos... por favor, poderia Vossa Majestade conceder-me dez dias antes de me jogar aos cães?"

O rei considerou que era um pedido razoável e resolveu atendê-lo.

Na prisão, o servo pediu à guarda para preencher seu tempo ocioso cuidando dos cães durante os dez dias. A guarda concordou e o servo passou a limpar o canil, alimentar os cães e banhá-los com todo o carinho.

Transcorridos os dez dias, ordenou o rei que o servo fosse trazido do cárcere para ser jogado aos cães. Assim foi feito. No entanto, para surpresa de todos, ao ser lançado aos cães, eis que as feras vorazes lamberam os pés do servo!

Perplexo com o que estava vendo, exclamou o rei: "Mas o que aconteceu com meus ferozes cães?"

O servo respondeu: "Eu servi a estes cães por apenas dez dias... entretanto, eles não esqueceram os meus serviços. Eu o servi por dez anos e o senhor se esqueceu de tudo no meu primeiro erro."

O rei caiu em si e ordenou que o servo fosse restabelecido no cargo.

(Dedicado a todos aqueles que se esquecem de uma palavra linda: "gratidão". E apressam-se a condenar uma pessoa, sem lembrar dos seus atos de bondade)

sábado, 18 de maio de 2019

Buda e a Água do Riacho


Diz a lenda que um dia,já em idade bastante avançada, Buda passava por uma floresta. Era um dia quente de verão e ele estava com muita sede. Então ele disse a Ananda, seu discípulo-mor: "Você precisa voltar, passamos por um pequeno riacho cinco ou seis quilômetros atrás. Vá, e leve a minha vasilha de esmolas e me traga um pouco de água. Estou com sede e cansado".

Ananda retornou, mas, ao chegar ao local, percebeu que alguns carros de bois haviam atravessado o riacho, revolvendo o leito de folhas secas e deixando a água enlameada. Já não era mais possível beber daquela água, ela estava muito suja. Ele voltou com as mãos vazias dizendo: "Você precisa esperar um pouco. Eu vou seguir adiante, pois ouvi falar de um grande rio a apenas três ou quatro quilômetros daqui. eu trarei água de lá".

Mas Buda insiste dizendo: "Volte e traga água do mesmo riacho".

Ananda não conseguia intender tanta insistência, mas, se o mestre estava ordenando, o discípulo obedeceria. Assim, ele retornou ao riacho, mesmo sabendo do absurdo que seria caminhar cinco ou seis quilômetros, sabendo que a água não era boa para ser bebida.

Ao retornar, Buda disse: "E não volte se a água ainda estiver suja. Se estiver suja, simplesmente sente à margem do riacho e permaneça em silêncio e observe. Cedo ou tarde a água estará límpida novamente. Você poderá encher a vasilha e voltar".

Ananda retornou ao local: Buda estava certo: a água estava quase límpida, as folhas tinham sido levadas, a sujeira tinha assentado. Mas ainda não estava absolutamente límpida. Assim, ele se sentou à margem e apenas observou o rio fluir. Lentamente, ele se tornou transparente como um cristal. Ananda retornou dançando. Ele havia entendido por que Buda fora tão insistente, pois na sua insistência Buda havia deixado uma mensagem que ele compreendera. Ananda entregou a água a Buda e agradeceu tocando seus pés.

Buda então disse: "O que você está fazendo? Sou eu quem deveria agradecê-lo por ter me trazido água".

Ananda retorquiu: " Agora eu entendo. No início eu estava com raiva. Eu não demonstrei, mas estava com raiva porque achava que era absurdo voltar. Agora, entendi a mensagem. Sentado a margem do riacho, me dei conta que a mesma coisa acontece com minha mente. Se eu mergulhar no rio, eu o sujarei novamente. Se eu mergulhar na mente, apenas criarei mais barulho, mais problemas serão desenterrados e irão começar a aparecer. Aprendi a técnica simplesmente ao sentar à margem".

Fique sentado à margem de sua mente, observando sua sujeira, seus problemas, suas folhas podres, mágoas, feridas, memórias , desejos. Sente-se despreocupadamente à margem de tudo e aguarde o momento em que tudo estará límpido novamente.

Isto acontecerá por si só porque, no momento em que se sentar à margem de sua mente, você não estará mais transmitindo energia para ela. Essa é a verdadeira meditação. A meditação é a arte da transcendência.


quarta-feira, 1 de maio de 2019

Sem Trabalho, Sem Comida


Hyakujo, o mestre Zen chinês, costumava trabalhar com seus discípulos mesmo na idade de 80 anos, aparando o jardim, limpando o chão, e podando as árvores.

Os discípulos sentiram pena em ver o velho mestre trabalhando tão duramente, mas eles sabiam que ele não iria escutar seus apelos para que parasse. Então eles resolveram esconder suas ferramentas.

Naquele dia o mestre não comeu. No dia seguinte também, e no outro.

“Ele deve estar irritado por termos escondido suas ferramentas,” os discípulos acharam. “É melhor nós as colocarmos de volta no lugar.”

No dia em que eles fizeram isso, o mestre trabalhou e comeu exatamente como antes. À noite ele os instruiu, simplesmente:

“Sem trabalho, sem comida.”