sábado, 18 de maio de 2019

Buda e a Água do Riacho


Diz a lenda que um dia,já em idade bastante avançada, Buda passava por uma floresta. Era um dia quente de verão e ele estava com muita sede. Então ele disse a Ananda, seu discípulo-mor: "Você precisa voltar, passamos por um pequeno riacho cinco ou seis quilômetros atrás. Vá, e leve a minha vasilha de esmolas e me traga um pouco de água. Estou com sede e cansado".

Ananda retornou, mas, ao chegar ao local, percebeu que alguns carros de bois haviam atravessado o riacho, revolvendo o leito de folhas secas e deixando a água enlameada. Já não era mais possível beber daquela água, ela estava muito suja. Ele voltou com as mãos vazias dizendo: "Você precisa esperar um pouco. Eu vou seguir adiante, pois ouvi falar de um grande rio a apenas três ou quatro quilômetros daqui. eu trarei água de lá".

Mas Buda insiste dizendo: "Volte e traga água do mesmo riacho".

Ananda não conseguia intender tanta insistência, mas, se o mestre estava ordenando, o discípulo obedeceria. Assim, ele retornou ao riacho, mesmo sabendo do absurdo que seria caminhar cinco ou seis quilômetros, sabendo que a água não era boa para ser bebida.

Ao retornar, Buda disse: "E não volte se a água ainda estiver suja. Se estiver suja, simplesmente sente à margem do riacho e permaneça em silêncio e observe. Cedo ou tarde a água estará límpida novamente. Você poderá encher a vasilha e voltar".

Ananda retornou ao local: Buda estava certo: a água estava quase límpida, as folhas tinham sido levadas, a sujeira tinha assentado. Mas ainda não estava absolutamente límpida. Assim, ele se sentou à margem e apenas observou o rio fluir. Lentamente, ele se tornou transparente como um cristal. Ananda retornou dançando. Ele havia entendido por que Buda fora tão insistente, pois na sua insistência Buda havia deixado uma mensagem que ele compreendera. Ananda entregou a água a Buda e agradeceu tocando seus pés.

Buda então disse: "O que você está fazendo? Sou eu quem deveria agradecê-lo por ter me trazido água".

Ananda retorquiu: " Agora eu entendo. No início eu estava com raiva. Eu não demonstrei, mas estava com raiva porque achava que era absurdo voltar. Agora, entendi a mensagem. Sentado a margem do riacho, me dei conta que a mesma coisa acontece com minha mente. Se eu mergulhar no rio, eu o sujarei novamente. Se eu mergulhar na mente, apenas criarei mais barulho, mais problemas serão desenterrados e irão começar a aparecer. Aprendi a técnica simplesmente ao sentar à margem".

Fique sentado à margem de sua mente, observando sua sujeira, seus problemas, suas folhas podres, mágoas, feridas, memórias , desejos. Sente-se despreocupadamente à margem de tudo e aguarde o momento em que tudo estará límpido novamente.

Isto acontecerá por si só porque, no momento em que se sentar à margem de sua mente, você não estará mais transmitindo energia para ela. Essa é a verdadeira meditação. A meditação é a arte da transcendência.


quarta-feira, 1 de maio de 2019

Sem Trabalho, Sem Comida


Hyakujo, o mestre Zen chinês, costumava trabalhar com seus discípulos mesmo na idade de 80 anos, aparando o jardim, limpando o chão, e podando as árvores.

Os discípulos sentiram pena em ver o velho mestre trabalhando tão duramente, mas eles sabiam que ele não iria escutar seus apelos para que parasse. Então eles resolveram esconder suas ferramentas.

Naquele dia o mestre não comeu. No dia seguinte também, e no outro.

“Ele deve estar irritado por termos escondido suas ferramentas,” os discípulos acharam. “É melhor nós as colocarmos de volta no lugar.”

No dia em que eles fizeram isso, o mestre trabalhou e comeu exatamente como antes. À noite ele os instruiu, simplesmente:

“Sem trabalho, sem comida.”


domingo, 28 de abril de 2019

Conhecimento e Sabedoria


Diz-se que dois jovens monges se aproximaram do mestre que, em silêncio, apreciava o sol que se espreguiçava no vale se preparando para mais um dia.

O mestre, ao vê-los, apenas sorriu sem alterar sua posição.

O mais velho dos monges cumprimentou-o com gentileza e indagou:

- Mestre, estamos discutindo e não chegamos a nenhuma conclusão sobre a diferença entre conhecimento e sabedoria. Para ele não existe diferença, para mim sim, porém, não consigo expressar em palavras o que sinto e assim convencê-lo destas diferenças.

O mestre sorriu mais uma vez e olhando para o horizonte apontou para a montanha mais alta e disse:

- Para saber a diferença, coloquem um punhado de grãos de feijão em seus sapatos e subam até o alto daquela montanha, depois conversaremos.

Ambos saíram e seguiram as orientações do mestre, não sem antes passar em seus aposentos e se preparar para a subida.

No final da tarde retornaram e encontraram o mestre esperando-os pacientemente.

O mais jovem reclamava das dores que sentia uma vez que os grãos criaram bolhas deixando inchados seus pés. O outro monge parecia nada sentir e seus pés estavam perfeitos sem nenhum problema.

Olhando para o mais jovem, que havia se sentado para aliviar a dor, disse o mestre:

- Percebeu a diferença entre conhecimento e sabedoria? Seu amigo colocou os mesmos grãos de feijão em seus sapatos, porém, tomou o cuidado de usar grãos cozidos!...

quarta-feira, 20 de março de 2019

Os Peixes e a Felicidade


Certa vez, Chuang Tzu e um amigo caminhavam à margem de um rio.

“Veja os peixes nadando na corrente” - disse Chuang Tzu, “Eles estão realmente felizes…“

“Você não é um peixe” - replicou arrogantemente seu amigo, “Então você não pode saber se eles estão felizes.“

“Você não é Chuang Tzu” - disse Chuang Tzu, “Então como você sabe que eu não sei que os peixes estão felizes?"

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Donos da Verdade são Como Cegos


Sete sábios, cada um de uma religião, discutiam qual deles conhecia, realmente, a verdade. Um rei muito sábio que observava a discussão aproximou-se e perguntou:
- O que vocês estão discutindo?
- Estamos tentando descobrir qual de nós é dono da verdade.

Ao escutar isso, o rei, imediatamente, pediu a um de seus servos que levasse sete cegos e um elefante até o seu castelo. Quando os cegos e o elefante chegaram ao palácio, o rei mandou chamar os sete sábios e pediu-lhes que observassem o que aconteceria a seguir.
O sábio rei pediu aos cegos que tocassem o elefante e o descrevessem, um de cada vez.

O primeiro cego tocou a tromba do elefante e disse:
– É comprido, parece uma serpente.
O segundo tocou-o no dente e disse:
– É duro, parece uma pedra.
O terceiro segurou-lhe o rabo e disse:
– É cheio de cordinhas.
O quarto pegou na orelha e disse:
– Parece um couro bem grosso.
E assim, sucessivamente, cada cego descreveu o elefante de acordo com a parte dele que estava tocando. Quando todos terminaram de descrever o animal, o rei perguntou aos sete sábios:

– Algum desses cegos mentiu?
– Não! – responderam os sábios em coro – Todos falaram a verdade.
Então, o rei perguntou:

– Mas algum deles disse realmente o que é um elefante?
– Não, nenhum cego disse o que é um elefante, mesmo porque cada um tocou apenas uma parte dele – disse um dos sábios.

Então, concluiu o rei: 

– Vocês, sábios, que estão discutindo quem é dono da verdade, parecem cegos. Todos estão falando a verdade, mas, como os sete cegos, cada um se refere apenas a uma parte dela. Ninguém é dono da verdade, porque ninguém a detém por inteiro.

Fonte: https://osegredo.com.br/ninguem-e-dono-da-verdade/

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Os Sons do Silêncio


Um rei mandou seu filho estudar no templo de um sábio mestre com o objetivo de prepará-lo para ser um grande líder. Quando o príncipe chegou ao templo, o mestre o mandou sozinho para uma floresta. Ele deveria voltar um ano depois, e descrever todos os sons da floresta.

Quando o príncipe retornou ao templo, após um ano, o mestre lhe pediu para descrever todos os sons que conseguira ouvir. Então disse o príncipe: "Mestre, pude ouvir o canto dos pássaros, o barulho das folhas, o alvoroço dos beija-flores, a brisa batendo na grama, o zumbido das abelhas, o barulho do vento cortando os céus..." E ao terminar o seu relato, o mestre pediu que o príncipe retornasse à floresta para ouvir tudo o mais que fosse possível.

Apesar de intrigado, o príncipe obedeceu a ordem do mestre, pensando: "Não entendo, eu já distingui todos os sons da floresta..."

Por dias e noites ficou sozinho ouvindo, ouvindo, ouvindo... mas não conseguia distinguir nada além daquilo que já havia relatado ao mestre. Porém, certa manhã, começou a distinguir sons vagos, diferentes de tudo o que ouvira antes. E, quanto mais prestava atenção, mais claros os sons se tornavam. Uma sensação de encantamento tomou conta do rapaz. Pensou: - "Esses devem ser os sons que o mestre queria que eu ouvisse..." E sem pressa, ficou ali ouvindo e ouvindo, pacientemente. Queria ter certeza de que estava no caminho certo.

Quando retornou ao templo, o mestre lhe perguntou o que mais conseguira ouvir. Paciente e respeitosamente, o príncipe falou: "Mestre, quando prestei atenção pude ouvir o inaudível som das flores se abrindo, o som do sol nascendo e aquecendo a terra e o da grama bebendo o orvalho da noite...

Sorrindo, o mestre acenou com a cabeça em sinal de aprovação, e disse: 

"Ouvir o inaudível é ter a calma necessária para se tornar uma pessoa importante. Apenas quando se aprende a ouvir o coração das pessoas, seus sentimentos mudos, seus medos não confessados e suas queixas silenciosas, uma pessoa pode inspirar confiança ao seu redor; entender o que está errado e atender às reais necessidades de cada um”. E acrescentou: 

"A morte de uma relação começa quando as pessoas ouvem apenas as palavras pronunciadas pela boca, sem se atentarem no que vai no interior das pessoas para ouvir os seus sentimentos, desejos e opiniões reais. É preciso, portanto, ouvir o lado inaudível das coisas, o lado não mensurado,mas que tem o seu valor, pois é o lado mais importante do ser humano..."

domingo, 29 de abril de 2018

Buda e o Conceito de Deus


Uma vez aconteceu: Buddha entrou numa aldeia e um homem perguntou-lhe:
“Deus existe?”.
Buddha responde:
“Não, absolutamente”. À tarde, outro homem surgiu e perguntou:
“Deus existe?” Buddha respondeu: ...
“Sim, absolutamente”.
À noite, veio outro homem que lhe perguntou: “Deus existe?” Buddha encerrou os olhos e ficou em profundo silêncio...
O homem também fechou os olhos. Algo surgiu daquele silêncio. Após alguns minutos o homem tocou nos pés de Buddha, fez-lhe uma vênia, prestou o seu respeito e disse: “Foste o primeiro que respondeu à minha pergunta”.

O discípulo de Buddha, Ananda, ficou confuso: “De manhã ele disse não, à tarde disse sim, e à noite não respondeu de todo... Qual é o problema? Qual é a verdade realmente?” Quando Buddha se ia deitar, Ananda disse: “Primeiro responde-me senão não vou conseguir dormir...Tens que ser um pouco mais compassivo comigo – estive contigo todo o dia. Estas três pessoas não sabem sobre as outras respostas, mas eu ouvi-as. Então e eu? Estou confuso..."

Buddha respondeu: “Eu não estava a falar contigo...Tu não perguntaste e eu não TE respondi...O primeiro homem era crente, o segundo ateu, e o terceiro agnóstico... A minha resposta não teve nada a ver com Deus, teve que ver com o questionador. À pessoa que acreditava em Deus eu respondi 'não', porque eu queria que desistisse da ideia que tem de Deus – que é emprestada... Ele ainda não o experienciou senão não tinha perguntado...

A pessoa que acreditava em Deus estava a tentar confirmar as suas crenças... Eu não lhe ia dizer que sim... Não vou confirmar as crenças de quem quer que seja... Tive que lhe destruir as crenças, porque as crenças são barreiras para a verdade. Crentes ou ateus, hindus, cristãos ou muçulmanos, todos os sistemas de crenças são barreiras...

A pessoa com quem fiquei em silêncio foi o verdadeiro inquisidor... Ele não tinha crenças, por isso não havia necessidade de destruir o que quer que fosse... Mantive o silêncio. Foi a minha mensagem para ele: fica em silêncio e descobre... Não perguntes, não há necessidade de perguntar... Não é uma questão que possa ser respondida... Não é um inquérito; é uma busca... Também lhe respondi através do meu silêncio, que ele seguiu de imediato... Eu fechei os olhos, ele fechou os olhos. Eu olhei para dentro, ele olhou para dentro e depois algo surgiu... Foi por isso que ele ficou tão assoberbado e sentiu tanta gratidão – eu não lhe dei uma resposta intelectual...Ele não vinha à procura de respostas intelectuais, estas estão sempre disponíveis a baixo preço... Ele procurava algo existencial, ele precisava de provar...E provou... 

A Meditação também é assim:
silenciar a mente e tornar-se uno...


(Em homenagem ao Festival Wesak, que celebra hoje a iluminação de Buda)