quinta-feira, 11 de julho de 2013

Buda e o Deva

Diz a lenda que, certa vez, Buda estava no jardim de Anathapindika, na cidade de Jetavana, quando lhe apareceu um Deva (espírito da natureza), transfigurado em brâmane, todo vestido de branco.

Logo deram início a um importante diálogo:

Deva: - Qual é a espada mais cortante?
Buda: - A palavra raivosa é a espada mais cortante.

Deva: - Qual é o maior veneno?
Buda: - A inveja é o mais mortal veneno.

Deva: - Qual é o fogo mais ardente?
Buda: - A luxúria.

Deva: - Qual é a noite mais escura?
Buda: - A ignorância.

Deva: - Quem obtém a maior recompensa?
Buda: - Quem dá sem desejo de receber é quem mais ganha.

Deva: - Quem sofre a maior perda?
Buda: - Quem recebe de outro sem devolver nada é o que mais perde.

Deva: - Qual é a armadura mais impenetrável?
Buda: - A paciência.

Deva: - Qual é a melhor arma?
Buda: - A sabedoria.

Deva: - Qual é o ladrão mais perigoso?
Buda: - Um mau pensamento é o ladrão mais perigoso.

Deva: - Qual o tesouro mais precioso?
Buda: - A virtude.

Deva: - Quem recusa o melhor que lhe é oferecido neste mundo?
Buda: - Recusa o melhor que se lhe oferece quem aspira à imortalidade.

Deva: - O que atrai?
Buda: - O bem atrai.

Deva: - O que repugna?
Buda: - O mal repugna.

Deva: - Qual é a dor mais terrível?
Buda: - A má conduta.

Deva: - Qual é a maior felicidade?
Buda: - A libertação.

Deva: - O que ocasiona a ruína no mundo?
Buda: - A ignorância.

Deva: - O que destrói a amizade?
Buda: - A inveja e o egoísmo.

Deva: - Qual é a febre mais aguda?
Buda: - O ódio.

Deva: - Qual é o melhor médico?
Buda: - O Buda.

O Deva então fez a sua última pergunta:

- O que é que o fogo não queima, nem a ferrugem consome, nem o vento abate e é capaz de reconstruir o mundo inteiro?

Buda respondeu:

- O benefício das boas ações.

Satisfeito com as respostas, o Deva juntou as mãos, inclinou-se respeitosamente ante Buda e desapareceu.

(Baseado  no livro "Buda - Aquele que Despertou", de Martin Claret)

quinta-feira, 13 de junho de 2013

A Lenda da Flor-de-Lótus

Diz a lenda oriental que, certa vez, às margens de um tranquilo lago solitário, encravado num belo bosque repleto de árvores frondosas onde passarinhos de mil cores e mil cantos faziam seus ninhos, os quatro elementos irmãos se encontraram. Eles eram o Fogo, o Ar, a Água e a Terra.

“Quanto tempo sem nos vermos em nossa nudez primitiva!” - exclamou o Fogo, cheio de vigor e entusiasmo, como é de sua natureza.

“É verdade... nosso destino é bem curioso: nós nos doamos tanto para construir as formas e terminamos ficando escravos da nossa obra e perdendo nossa liberdade..." – disse o Ar, pesaroso.

A Água replicou:

“Pare de se queixar, irmão Ar! Nós estamos obedecendo à Lei! Pode existir prazer maior do que servir à Criação? Por que lamentar se corres de um lado para outro, à tua vontade, assim como o irmão Fogo, que entra e sai por todo lado, servindo à vida e à morte! Eu faço o mesmo!”

E a Terra entrou no diálogo:

“Quem deveria se lamentar sou eu: estou sempre imóvel e, a despeito da minha vontade, vivo dando voltas no espaço, sem nenhum descanso!”

Ao que o Fogo respondeu:

“Por favor, acabem com essa discussão pueril! Não entristeçam a minha felicidade pelo nosso encontro! Precisamos celebrar os momentos em que nos encontramos fora da forma! Festejemos a vida, à sombra destas árvores e à margem deste lago formado pela nossa união!”

Todos o aplaudiram e se entregaram ao feliz momento. Cada um compartilhou seus feitos e suas maravilhas, o que haviam construído e destruído. Cada um deles demonstrou seu justo orgulho porque, pelo seu trabalho, a Vida pôde se manifestar através de formas sempre mais belas e mais perfeitas. E encheram-se regozijo.

Apenas uma nuvem sombria empanava uma alegria tão grande: o homem. O homem era – digamos – a pedra no sapato. Como ele era ingrato! Apesar de ter sido construído com esmero, tendo sido utilizados os mais perfeitos e puros materiais, o homem não valorizava o próprio ser e abusava dos elementos que o haviam criado, perdendo-os. Os irmãos tiveram todos o mesmo desejo, de retirar sua cooperação e privar o homem de realizar suas experiências no plano físico... Mas a nuvem dissipou-se e a alegria voltou a reinar entre eles.

Ao chegar o momento de se separarem, decidiram deixar algo que marcasse aquele encontro; algo que se perpetuasse no tempo; algo que pudesse combinar os fragmentos de cada um de forma harmônica, expressando sua independência e suas diferenças, para que servisse de símbolo e exemplo para o homem.

Pensaram e projetaram, até que, subitamente, vendo seu reflexo no lago, os quatro tiveram a mesma ideia:

“E se criássemos uma planta cujas raízes estivessem no fundo do lago, a haste na água e as folhas e flores fora dela?”

A Terra logo se prontificou:

“Eu colocarei nela as melhores forças de minhas entranhas e alimentarei suas raízes!”

Disse a Água:

“Eu instilarei nela as melhores linfas de meus seios, fazendo crescer a sua haste!”

O Ar imediatamente continuou:

“Eu soprarei nela as minhas melhores brisas, para tonifica-la!”

E o Fogo terminou:

“E eu doarei para ela todo o meu calor, a fim de que suas corolas se tinjam das mais formosas cores!”

Assim disseram, assim fizeram. Com muito entusiasmo e amor, os quatro irmãos deram início à fantástica criação. Como que por encanto, a forma foi sendo plasmada laboriosamente, até que as raízes, a haste, as folhas e as flores apareceram. O sol abençoou-a e a planta foi saudada como rainha pela flora do local.

Satisfeitos, os quatro elementos se separaram, deixando a Flor-de-Lótus a brilhar no lago, exibindo sua beleza imaculada e inspirando o homem como símbolo da pureza e perfeição.


E os deuses, ao chegar à Terra, escolheram o Lótus como trono.


(Conto adaptado pela autora do blog).

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Amor ou Paixão?

A luxúria, por vezes, nos prega peças. E, frequentemente, é confundida com amor.

Diz a tradição zen-budista que, no passado, havia uma monja muito bonita, chamada Eshun. Um jovem monge apaixonou-se perdidamente por ela. Com receio de ser rejeitado, decidiu escrever-lhe uma carta, declarando a Eshun seus sentimentos e pedindo para encontrá-la às escondidas.

A monja aguardou o momento certo para responder. No dia seguinte, aguardou o Mestre terminar a prática do dia e então dirigiu-se ao monge, em voz alta, diante de todos:

“Tu me enviaste uma carta declarando teu amor por mim e propondo-me um encontro. Entretanto, o Amor não é algo para ser realizado às escondidas, pois ele é pleno e sincero. Se realmente me amas e não só me desejas, abraça-me em frente a todos. O que há para esconder?”

Com vergonha, o jovem monge abaixou a cabeça e caiu em si. Na verdade, o que sentia não passava de luxúria…

domingo, 9 de junho de 2013

Verdadeira Amizade

Conta esta lenda judaica que dois amigos cultivavam e dividiam o mesmo campo de trigo, trabalhando arduamente a terra com amor e dedicação, numa luta estafante, às vezes inglória, à espera de um resultado compensador.

Anos a fio lidaram com a terra, obtendo pouco ou nenhum retorno, até que um dia, finalmente, a natureza respondeu e regalou-os com uma grande safra, perfeita, magnífica, satisfazendo os dois agricultores que a repartiram igualmente, eufóricos. 

Trabalharam na colheita o dia inteiro e depois cada um seguiu o seu rumo.

À noite, já no leito, cansado da brava lida daqueles últimos dias, um deles pensou: "Eu sou casado, tenho filhos fortes e bons, uma companheira fiel e cúmplice. Eles me ajudarão no fim da minha vida. O meu amigo é sozinho, não se casou, nunca terá um braço forte a apoiá-lo. Com certeza, vai precisar muito mais do dinheiro da colheita do que eu".

Levantou-se silencioso para não acordar ninguém, colocou metade dos sacos de trigo recolhidos na carroça e saiu.

Ao mesmo tempo, em sua casa, o outro não conciliava o sono, pensando: "Para que preciso de tanto dinheiro se não tenho ninguém para sustentar, já estou idoso para ter filhos e não penso mais em me casar? As minhas necessidades são muito menores do que as do meu sócio, com uma família numerosa para manter".

Não teve dúvidas: pulou da cama, encheu a sua carroça com a metade do produto da boa terra e saiu pela madrugada fria, dirigindo-se à casa do outro. O entusiasmo era tanto que não dava para esperar o amanhecer.

Na estrada escura e nebulosa daquela noite de inverno, os dois amigos encontraram-se frente a frente. Olharam-se espantados. Mas não foram necessárias as palavras para que entendessem a mútua intenção.

Amigo é aquele que no seu silêncio escuta o silêncio do outro.

(Lenda Judaica)

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Por Que Palavras?

Um monge aproximou-se de seu mestre - que se encontrava em meditação no pátio do Templo à luz da lua - com uma grande dúvida:

"Mestre, aprendi que confiar nas palavras é ilusório; e diante das palavras, o verdadeiro sentido surge através do silêncio. Mas vejo que os Sutras e as recitações são feitas de palavras; que o ensinamento é transmitido pela voz. Se o Dharma está além dos termos, porque os termos são usados para defini-lo?"

O velho sábio respondeu:

"As palavras são como um dedo apontando para a lua; cuida de saber olhar para a Lua; não te preocupes com o dedo que a aponta".

O monge replicou: 

"Mas eu não poderia olhar a lua sem precisar que algum dedo alheio a indique?"

Explicou o mestre:

"Poderia, e assim tu o farás, pois ninguém mais pode olhar a lua por ti. As palavras são como bolhas de sabão: frágeis e inconsistentes, desaparecem quando em contato prolongado com o ar. A lua está e sempre esteve à vista. O Dharma é eterno e completamente revelado. As palavras não podem revelar o que já está revelado desde o Primeiro Princípio".

Perguntou ainda o monge:

"Então, por que os homens precisam que lhes seja revelado o que já é de seu conhecimento?"

Completou o sábio:

"Porque da mesma forma que ver a lua todas as noites faz com que os homens se esqueçam dela pelo simples costume de aceitar sua existência como fato consumado, assim também os homens não confiam na Verdade já revelada pelo simples fato de ela se manifestar em todas as coisas, sem distinção. Dessa forma, as palavras são um subterfúgio, um adorno para embelezar e atrair nossa atenção. E como qualquer adorno, pode ser valorizado mais do que é necessário".

O mestre ficou em silêncio durante muito tempo. Então, de súbito, simplesmente apontou para a lua.

(Tam Hyuen Van)

quinta-feira, 16 de maio de 2013

O Amor é Como a Flor



Havia uma jovem que muito bem sucedida na vida: ela tinha um marido maravilhoso, filhos perfeitos, um emprego que lhe rendia um bom salário e uma família unida. O problema é que ela não conseguia conciliar tudo, porque o trabalho e os afazeres  ocupavam quase todo o seu tempo e ela estava sempre em débito em alguma área. Se o trabalho a consumia, então ela deixava de cuidar dos filhos; se surgiam imprevistos, ela deixava de lado o marido...

Assim, as pessoas que ela amava eram deixadas para depois até que um dia, seu pai, que era um homem muito sábio, foi visitá-la e levou um presente para ela: uma flor muito rara, da qual só havia um exemplar em todo o mundo. O pai entregou-lhe o vaso com a flor e disse: 

- Filha, esta flor vai ajudá-la muito mais do que imagina! Você terá apenas que regá-la e podá-la de vez em quando, e, às vezes, conversar um pouquinho com ela. Se assim fizer, ela enfeitará sua casa e lhe dará em troca esta beleza e este perfume maravilhoso. 

A jovem ficou muito emocionada, afinal a flor era de uma beleza sem igual.

Mas o tempo foi passando e o trabalho continuava consumindo todo o seu tempo, e a sua vida, que continuava confusa, não lhe permitia cuidar da flor. Ela chegava em casa, e as flores ainda estavam lá, não mostravam sinal de fraqueza ou morte, apenas estavam lá, lindas, perfumadas. Então ela passava direto.

Até que um dia, sem mais nem menos, a flor morreu. Ela chegou em casa e levou um susto! A planta, antes exuberante, estava completamente morta, suas raízes estavam ressecadas, suas flores murchas e as folhas amareladas. A jovem chorou muito, e contou ao pai o que havia acontecido. Seu pai então respondeu: 

- Eu já imaginava que isto aconteceria, e, infelizmente, não posso lhe dar outra flor, porque não existe outra igual a esta. Ela era única, assim como seus filhos, seu marido e sua família. Todos são bênçãos que o senhor lhe deu, mas você tem que aprender a regá-los, podá-los e dar atenção a eles, pois assim como a flor, os sentimentos também morrem. Você se acostumou a ver a flor sempre lá, sempre viçosa, sempre perfumada, e se esqueceu de cuidar dela. Nós precisamos cuidar daquilo que amamos! 

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Amarre Seu Camelo

Um sábio mestre viajava com um de seus discípulos. Este, tinha como tarefa cuidar do camelo que os transportava. 

Porém, certa noite, o discípulo, muito cansado, fez uma prece pedindo a Deus que cuidasse do animal e adormeceu sem amarrá-lo. 

Ao amanhecer, o mestre perguntou-lhe sobre o paradeiro do camelo, que havia desaparecido. E o discípulo respondeu que havia delegado a guarda do animal a Deus, concluindo:

- Eu apenas segui suas orientações... Não devemos confiar em Deus?

E o mestre disse:

- Confie em Deus, mas amarre seu camelo. Deus não tem outras mãos além das suas.